Albert Camus | O Estrangeiro

03 setembro 2019

Já ouvi falar da estranheza do mundo, mas do indivíduo, foi uma novidade. Parece inverossímil dizer o quanto é possível um homem tornar-se indiferente a tudo, inclusive a sua existência, soa incomum afirmar que um ser humano é capaz de transformar-se num estranho em sua própria vida, porém quando citamos a obra ficcional de Albert Camus, O Estrangeiro, uma das mais conhecidas criações do autor e filósofo, adentramos o universo particular de um indivíduo que alienado pela passividade de sua vida, enfrenta o cotidiano de modo indiferente e com repleto distanciamento. 

Mersalt, a partir do instante em que nos introduz a sua história, observamos um sujeito pacato que começa narrando os acontecimentos tendo como estopim a morte de sua mãe, e recebendo-a em uma espécie de aceitação inesperada, totalmente desinteressado, e com ausência de qualquer reação sentimentalista, afetiva ou de enternecimento, como se esperasse o fato [a morte] há anos, e agora que o tivera são explicito diante de si, não significasse muito, ou valesse nada. Por diversas vezes, apresentou a seguinte justificativa "que a morte de sua mãe não era sua culpa". Embora esta seja sua postura, Mersalt conclui toda a formalidade do enterro e velório, a seu próprio modo. 

As frases mais recorrentes ditas pelo narrador-personagem ao longo da narrativa foram "tanto faz" e "não faz diferença". Em relação a tudo, Mersalt apresenta a mesma característica peculiar diante de qualquer dilema, enfrentamento ou situação da vida: grande indiferença, que para ele parece inteiramente normal, nada incomum, porém para nós, leitores, nos sentimos tendo à frente um homem cujo foco principal era não esboçar nenhum entusiasmo, expectativa, ou resposta que não fosse a capacidade de se esvaziar do sentir, tanto que em raros instantes da narração, nos deparamos com sentimentos tão comuns e essenciais do ser humano: felicidade, alegria, contentamento, tristeza, raiva, esperança. 

Mersalt parece inteiramente oco. Embora seja irresoluto e imparcial, podemos notá-lo como alguém preocupado em suprir suas principais necessidades: comer, dormir, manter relações sexuais, sentir frio, e soar diante da intensidade do sol, trabalhar, etc., porém quando se torna preciso demonstrar reações internas de acontecimentos externos, parece impossível percebê-lo como alguém que não seja tão irritantemente neutro. 

Ao final da primeira parte, Mersalt comete homicídio: mata um árabe; ao acaso encontra-o na praia onde estava com alguns amigos, conhecia-o [o árabe] por conta de acontecimentos anteriores envolvendo seu vizinho Raymond e a desavença deste com o árabe. Mersalt, sem planejar o assassinato, vendo-se diante da figura do sujeito na orla da praia, próximo a uma pedra, puxa o gatinho para matá-lo, e quando este jaz morto e sem sentidos ao chão, desfere mais quatro tiros sem ao menos hesitar. 

Mersalt não especifica porque decidiu tirar-lhe a vida, foi apenas um acontecimento inevitável, um acaso qualquer, porém mesmo acusado de homicídio, preso em consequência do ato, e julgado, este não apresenta nenhum arrependimento, remorso, reconsideração, mal lamenta o ocorrido com pesar. Naturalmente, ele se habitua a rotina da prisão, mantém o corriqueiro de sua vida também quando se vê sufocado por quatro paredes, atrás de grades e dentro de um cubículo minúsculo. Sente a sua liberdade retirada quando se depara com a privação do cigarro e do sexo, porém em nenhum instante se desespera, salve em um determinando momento da história, logo ao final. 

Albert Camus foi um filósofo que se debruçou em grandes pontos da filosofia, como sabemos, está área de conhecimento se prontifica a iniciar com uma pergunta, uma questão que nos leva a pensar, refletir e elaborar um pensamento único a cerca de algo, como ele não foi diferente. Por muitos, foi considerado um filósofo pertencente a corrente existencialista, embora negasse tal denominação, Camus esforçou-se internamente a procurar a resposta para "qual o sentido da existência?" Encontrou-a, porém a partir de uma perspectiva diferente. Seu pensamento ficou conhecido como Absurdismo, e a obra o estrangeiro é uma ficção que se debruça na tentativa de exemplificar tal conceito por meio de um sujeito que se depara com o absurdo da vida. 

Quem nunca, em algum momento da vida, seja perante uma multidão, enfrentando o cotidiano dos dias, a noite sozinho em plena escuridão e a cabeça repousada sem um pingo de sono, se questionou qual o sentido da vida, porque estamos aqui, qual o nosso propósito diante da vastidão do universo? É inevitável alguns destes questionamentos não terem sido alvo de investigações, reflexões, pensamentos e angústias. Inevitável. Já sucumbimos a ela, e por vezes, também adentramos crises intermináveis conosco, desavenças existenciais, e se a vida não tiver sentido? 

Bom, para Albert Camus e o absurdismo, não há sentido algum no fato de estarmos aqui, ou existirmos, ou ocuparmos um espaço do mundo, ou respirarmos. O mundo não tem propósito, não existe significado em nós, ou seja, possuímos uma existência desnecessária já que se fossemos extintos [e seremos] para o universo não faria diferença alguma. Nossa tentativa de atribuir significado e sentido para coisas que não tem sentido causa angústia, vazio, atormenta-nos constantemente. Por isso, o foco do pensamento de Camus é enfrentar e ultrapassar esse vazio e angústia. Mesmo tendo consciência da ausência de sentido: vale a pena continuar vivendo? 

A vida é absurda. O Estrangeiro é uma referência também a outra obra do autor, O Mito de Sísifo, ambas dialogam a questão absurdista da existência. 

Mersalt, em algum ponto da sua história, também conta a nossa. Sim, do mesmo modo, em algum momento da vida, também fomos estrangeiros, de nós e do mundo, encaramos com estranheza o decorrer por vezes tão automatizado dos nosso dias, atribuímos também importâncias mínimas por termos na ponta da língua a certeza de que tudo acaba, que tudo chega ao fim, que tudo será retornado ao pó, e então pensamos porque lutar com tamanha força, se esgueirar com tanta insistência, porque não abrir mão de tudo e caminhar [metaforicamente] sem a preocupação de nada, permitindo-se levar, empurrar com a barriga? 

Então pensamos naquilo que amamos fazer, no prazer de pequenos gigantescos detalhes que não nos escapam um único dia, que alimentam a força do espirito e da alma, mentalizamos a imagem, a figura, de quem ocupa com tanta facilidade o coração, e enche os espaços faltantes de nós com amor, alegria, amizade. Quando, de repente, a vida nos tira do avesso, ultrapassamos o que achamos ser o limite, o "não dá mais" sai morno dos lábios, gritado, o contorno de lágrimas, o desespero, algum problema fomentando a falta de esperança, é necessário pensar, esculpido no olhar, que tudo passa, que nenhum sofrimento fica, ele acaba, e acreditar que o depois pode ser ainda mais belo. 

Este é um jeito de vencer o absurdo da vida. 

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