Lamentações de quem poderia ter sido mais.

07 julho 2019
Ontem eu escolhi errado. Ou foi terça-feira. Não me lembro bem. Afinal, que dia é hoje? 
Se me arrependo das escolhas feitas? Não, na verdade, sinto poder em relação a tudo o decidi. Talvez seja uma falsa liberdade me dando um falso prazer, ou um falsa sensação de alívio. Esperei tanto o dia em que estaria ausente de mim mesma, e aqui estou, aguardando esse dia. Não tenho arrependimento algum, porque sinto que finalmente fui eu, e não deveria pedir desculpas por isso.
Se eu pudesse voltar, eu seguiria os mesmos rastros, teria comigo a mesma narrativa decorada na ponta da língua me levando para este exato instante. Seria eu uma covarde se fugisse do destino, porque vida é a repetição de algo que ainda não conhecemos, mas posso dizer que, em meio a tantos ciclos que apenas hoje fizeram sentido, eu vivi uma vida que foi minha. 
Foram os meus erros, os joelhos que ralaram o chão depois de um colapse foram os meus. As bocas que beijei, o arrependimento das que não consegui tocar por simples medo, o amor asfixiado na clavícula, inchando-me nas bordas, o derrame das vozes que calei e hoje envenenam o calor afetuoso dos dedos, dormentes do toque, fui um desastre. 
Lamento de não ter sido mais. 
Levo para o túmulo a certeza de que se eu tivesse uma segunda chance, o fôlego da vida se instalaria novamente em plenos pulmões hoje inertes, bexigas estouradas que esperam ar, e eu gritaria a dor das mazelas do mundo, porque carreguei o alicate cravado no peito por tempo suficiente. Lamento por não ter sido humana, demasiadamente humana, e nem ter conseguido ler Carl Rogers. Isso era importante, hoje não é mais. Carrego o arrependimento de ter sido cautelosa e contida, deveria ter me jogado de braços abertos ao mundo, teria me bastado cair de um penhasco para me apresentar ao restante daquilo tudo que nunca fui capaz de conhecer. 
Quando eu fiz isso, cravei a minha morte, abri uma cova funda para enterrar o meu corpo. 
Tem uma preguiça enorme que me faz cansar de viver com um câncer dentro de mim, uma doença que eu mesma me causei quando disse sim ao entorpecimento do desejo, cai do abismo em plena terra fosca, sem amortecedor para me curar das feridas que ficaram em forma de câncer. Mas eu não culpo ninguém. O alvo da minha culpa é a sociedade doente, essa que me permite viver com um câncer na minha vida sem que eu tenha a escolha de abortá-lo. Não consigo enfrentá-lo, tudo para mim é mais fácil do que encarar de frente as fraquezas da alma. É humilhante demais para continuar tentando encontrar motivo para viver, os meus acabaram ontem. Estranho mesmo é quando você é tão leve que absolutamente nada te prende aqui, nem mesmo a vida, e não há nada para se agarrar, que te prenda, algo para criar raízes. Meu último desejo é conseguir terminar Tornar-se pessoa antes da morte.
Com amor, 
Estela

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