Carta 1

02 julho 2019
Você nunca vai ler essa carta, mas eu não deixo de escrevê-la. 

Julho é o mês do seu aniversário, eu não esqueci, o engraçado é que eu vivia esquecendo, e agora me recordar dela é uma das poucas coisas que sobraram de você. Eu joguei tudo fora, sabia? Excluí as fotos, doei as roupas, me livrei dos presentes, mas ainda não consegui arrancar você do peito.

Acho que no fundo eu não quero desocupar o espaço que a sua falta me faz, a sensação que a saudade deixa de manhã e quando vou dormir. Doí demais. Eu consegui seguir a minha vida sem você, superando a cada dia a sua ausência. Indo em frente. Sentir a dor de quando fomos embora é tudo o que eu tenho. 

Em nenhum momento eu definitivamente parei ou falei que não daria conta de continuar. Não cortei os meus pulsos, nem disse que não me apaixonaria novamente, ou que a dor estaria me remoendo visceralmente vinte e quatro horas por dia. Eu só sigo em frente seguindo a sua falta, revivendo a dor do adeus, e as lembranças, aquelas gostosas. Sinto que foi melhor assim, cada um para o seu canto, eu precisava me reencontrar novamente, colocar para dentro dos pulmões novos ares, respirar outras atmosferas, e quem sabe não beijar outras bocas, e eu até beijei, ontem.

Não tinha outro lugar para nós no universo. Não havia espaço na sua vida para que eu pudesse fincar as minhas últimas raízes. Você não queria, já tinha cortado as primeiras. Deu errado, se estragou, se empoleirou, pegou ácaro, inseto nojento esse que gruda em tudo o que é desgastado. Traímos um ao outro. 

Mas hoje eu preciso saber uma coisa. Só me responde uma coisa? Você excluiu meu número? Não devia ter mandando aquela mensagem perguntando, mas eu precisava da resposta. Das tuas palavras me dizendo sim, sangrando um sim sobre mim. Eu decidiria o restante da minha vida com base nela. Eu precisava dessa libertação, e eu arrancaria de você a força se fosse necessário. Espero que não chegue nesse ponto. 

Chegou.

Com amor,
Sua amada

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