Feitiço

24 julho 2019
Quando pensei, uma única vez com lógica, e não transcorri na loucura mastigada de pouquíssimos achismos, mais internos do que externos, e raramente sentidos em uma linha reta, percebi finalmente que não havia sentido em recorrer a feitiçaria para alcançar um amor nascido de mim e que nunca, em momento algum, me pertenceu. Soltei esse sentimento ao mundo, na folhagem consumida pelos dias em que nenhum sol se atreveu a aparecer por detrás das nuvens, imprevisto por quaisquer finais imagináveis. Invocar uma magia negra, saltitar entre encruzilhadas, trazer a superfície os espíritos para ter um corpo no qual pudesse se contrair acima do meu, aquecer-me contra as friezas de dias quentes, e as tempestades de dias mornos, não parecia certo. Se tivesse consequências irreversíveis, o medo seria manifestação física  dos meus receios, um dos avisos mais alarmantes se baseou em "uma vida desgraçada por tantos anos, uma infelicidade maior do que se CONSEGUE suportar", e como resposta pensei que nenhuma desgraça seria pior do que viver o restante da pequena finitude carregando um abismo sufocante no peito em que não há opção de lançar-se contra ele ou recuar. 

Lamentações de quem poderia ter sido mais.

07 julho 2019
Ontem eu escolhi errado. Ou foi terça-feira. Não me lembro bem. Afinal, que dia é hoje? 
Se me arrependo das escolhas feitas? Não, na verdade, sinto poder em relação a tudo o decidi. Talvez seja uma falsa liberdade me dando um falso prazer, ou um falsa sensação de alívio. Esperei tanto o dia em que estaria ausente de mim mesma, e aqui estou, aguardando esse dia. Não tenho arrependimento algum, porque sinto que finalmente fui eu, e não deveria pedir desculpas por isso.
Se eu pudesse voltar, eu seguiria os mesmos rastros, teria comigo a mesma narrativa decorada na ponta da língua me levando para este exato instante. Seria eu uma covarde se fugisse do destino, porque vida é a repetição de algo que ainda não conhecemos, mas posso dizer que, em meio a tantos ciclos que apenas hoje fizeram sentido, eu vivi uma vida que foi minha. 
Foram os meus erros, os joelhos que ralaram o chão depois de um colapse foram os meus. As bocas que beijei, o arrependimento das que não consegui tocar por simples medo, o amor asfixiado na clavícula, inchando-me nas bordas, o derrame das vozes que calei e hoje envenenam o calor afetuoso dos dedos, dormentes do toque, fui um desastre. 
Lamento de não ter sido mais. 
Levo para o túmulo a certeza de que se eu tivesse uma segunda chance, o fôlego da vida se instalaria novamente em plenos pulmões hoje inertes, bexigas estouradas que esperam ar, e eu gritaria a dor das mazelas do mundo, porque carreguei o alicate cravado no peito por tempo suficiente. Lamento por não ter sido humana, demasiadamente humana, e nem ter conseguido ler Carl Rogers. Isso era importante, hoje não é mais. Carrego o arrependimento de ter sido cautelosa e contida, deveria ter me jogado de braços abertos ao mundo, teria me bastado cair de um penhasco para me apresentar ao restante daquilo tudo que nunca fui capaz de conhecer. 
Quando eu fiz isso, cravei a minha morte, abri uma cova funda para enterrar o meu corpo. 
Tem uma preguiça enorme que me faz cansar de viver com um câncer dentro de mim, uma doença que eu mesma me causei quando disse sim ao entorpecimento do desejo, cai do abismo em plena terra fosca, sem amortecedor para me curar das feridas que ficaram em forma de câncer. Mas eu não culpo ninguém. O alvo da minha culpa é a sociedade doente, essa que me permite viver com um câncer na minha vida sem que eu tenha a escolha de abortá-lo. Não consigo enfrentá-lo, tudo para mim é mais fácil do que encarar de frente as fraquezas da alma. É humilhante demais para continuar tentando encontrar motivo para viver, os meus acabaram ontem. Estranho mesmo é quando você é tão leve que absolutamente nada te prende aqui, nem mesmo a vida, e não há nada para se agarrar, que te prenda, algo para criar raízes. Meu último desejo é conseguir terminar Tornar-se pessoa antes da morte.
Com amor, 
Estela

Carta 1

02 julho 2019
Você nunca vai ler essa carta, mas eu não deixo de escrevê-la. 

Julho é o mês do seu aniversário, eu não esqueci, o engraçado é que eu vivia esquecendo, e agora me recordar dela é uma das poucas coisas que sobraram de você. Eu joguei tudo fora, sabia? Excluí as fotos, doei as roupas, me livrei dos presentes, mas ainda não consegui arrancar você do peito.

Acho que no fundo eu não quero desocupar o espaço que a sua falta me faz, a sensação que a saudade deixa de manhã e quando vou dormir. Doí demais. Eu consegui seguir a minha vida sem você, superando a cada dia a sua ausência. Indo em frente. Sentir a dor de quando fomos embora é tudo o que eu tenho. 

Em nenhum momento eu definitivamente parei ou falei que não daria conta de continuar. Não cortei os meus pulsos, nem disse que não me apaixonaria novamente, ou que a dor estaria me remoendo visceralmente vinte e quatro horas por dia. Eu só sigo em frente seguindo a sua falta, revivendo a dor do adeus, e as lembranças, aquelas gostosas. Sinto que foi melhor assim, cada um para o seu canto, eu precisava me reencontrar novamente, colocar para dentro dos pulmões novos ares, respirar outras atmosferas, e quem sabe não beijar outras bocas, e eu até beijei, ontem.

Não tinha outro lugar para nós no universo. Não havia espaço na sua vida para que eu pudesse fincar as minhas últimas raízes. Você não queria, já tinha cortado as primeiras. Deu errado, se estragou, se empoleirou, pegou ácaro, inseto nojento esse que gruda em tudo o que é desgastado. Traímos um ao outro. 

Mas hoje eu preciso saber uma coisa. Só me responde uma coisa? Você excluiu meu número? Não devia ter mandando aquela mensagem perguntando, mas eu precisava da resposta. Das tuas palavras me dizendo sim, sangrando um sim sobre mim. Eu decidiria o restante da minha vida com base nela. Eu precisava dessa libertação, e eu arrancaria de você a força se fosse necessário. Espero que não chegue nesse ponto. 

Chegou.

Com amor,
Sua amada