Virologia

30 junho 2019

Ontem o pensamento foi inofensivo, anteontem ele nem se quer existia. 

Tive febre por pensar muito. Racionalidade é agente infeccioso que se multiplica no interior de algo necessariamente frágil. 

Buraco de minhoca na quarta sinfonia do peito era matéria de falta, estoque de ausências. Semana retrasada, ainda revivia uma quase insanidade domesticada. Meus braços curtos tocavam elemento palpável: saudade diluída no olhar, vazada de fora para dentro, não era lágrima, se tratava de fluído lacrimal constituição de água, lipídios, lisozima, glicose, ureia, imunoglobulinas. 

É mais fácil digerir a cientificidade das coisas do que colocar para dentro a beleza poética embutida nos grandes sofrimentos do homem, porém não mais significativo. 

Nessa época, eu matava o verme, não o seu criadouro, a central de reprodução continuava intacta, com suas paredes impermeáveis. Pensava que era fungo o que me acometia, ou bactéria em proliferação, vírus aguardando o hospedeiro, protozoário. Tive gosto esquisito de enfraquecimento por dias, estava indefeso e desarmado. 

Meu sistema imunológico em paralisação, talvez em greve. De vez em quando a defesa do organismo contra o ataque de invasores externos falha, até os anticorpos recuam diante de um perigo maior. O que eu tive foi nocivo, uma substância tóxica de animal peçonhento, mas não era nenhum bicho rastejante, era humano. 

A taxonomia diz que somos homo sapiens. Discordava em partes: temos sentimentos virais, que mais parecem microrganismos, ganham viva ao menor contato com a estrutura corporal, se revestem de células, tecidos e órgãos. Apropriavam-se da cadeia metabólica, potencial bioquímico das enzinas em falência múltipla. Antígeno. 

Comprava medicamento na tentativa de cura, me entorpecia de quantidade exorbitante de moléculas, átomos, nutrientes, vitaminas. Fui uma farmácia ambulante quando ainda me faltava ter em mãos o diagnóstico da doença, o padecimento da homeostase em nome da estranheza do que o corpo não reconhecia como seu. Tudo o que sabia: era humano. Espécie mortal. 

Tinha partículas virais, extremamente pequenas, submicroscópicas, impossíveis a olho nu, adotava nome próprio. Fiquei sabendo mais tarde que a reprodução dos vírus acontece quando este insere seu material genético no da célula hospedeira, passando a dominar o metabolismo dela, destruindo-a. Tive um ciclo viral, havia sido isso.

Vírus, do latim vírus, que significa fluído venenoso ou tóxico. Longe de um abismo onde se alocar são inertes, ineficazes. Morrem sem que haja algo para abocanhar, quando já penetrados na epiderme, em contato com a maquinaria das células, comandando a corrente sanguínea, as funções que garantem a sobrevivência da espécie, provocam a sua degeneração, encaminha sem atalho para a morte o corpo, a vida.

Meses mais tarde, em delírio febril deitado sobre o leito da cama, com a transição de uma lágrima perfurando a vista, o vírus me partiu ao meio novamente, desestabilizou-se em mim as suas duplicações, réplicas de si, procriação de finalidade: me levar ao caixão antes da loucura. Acreditava que para levar ao túmulo precisava de caixão, acontece que eu estava vazio por dentro, doença me ocupando. 

Meu vírus chamava-se amor. Precisava de mim, hospedeiro frágil que em relação comensal, ou mutualista, se manteve vivo, abriguei outro. Este, ao contrário, era vivo. 

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