Tão imensamente vazia

06 junho 2019

Possuo ausências embutidas em mim, como uma placa de ferro pontiaguda perfurado na massa mole corpulenta, ensanguentada pelo não cumprimento do afeto, do olhar não dirigido, a incerteza atravessada na alma, a angustia penetrada na costela, a dor amargurada transportada na própria garganta, um coração aconchegado em marcas das faltas que a vida não me permitiu sentir, abocanhar, torna-se finalmente meu, inundar-me da insuficiência desprezível do mundo que em nada cura quando eu inteiro me faço na possibilidade de ser o que nunca me permiti, realmente, escolher. 

Falta.

Ausência. 

Vencimento próximo. Data de validade em aproximação constante, em rasteira ressonância com tudo o que escapa de mim, pelo vazio ancorado da alma: é o que falta para ser o vácuo. 

Não culpa as batalhas inteiradas em mim que na secura do horizonte próximo, ainda inerte, estático, sonambulo na paralisação repentina minha que me faz não sentir o nada em mim, asfixiam-me o tesão pela vida. Mãos ocas e comprimidas, resgatadas em maré revoltosa, na quebradiça onda infinita do movimento traiçoeiro do mar; uma alma solitária como a minha, repousada no seio do que nunca tive para chamar de meu, descansa na esfera último da vida, aqui existe mais túmulos do que todos os cemitérios de São Paulo: abro covas em nome de todas as minhas mortes de solidão. 

Vazio. 

Baú. 

Contam-me que não foi de propósito, que na mais aleatoriedade proposital da órbita, no processar reservado da incompreensão, no bater fervoroso de uma borboleta, na gosma nojenta de uma lesta rastejante, meu quarto tornou-se um refúgio, e então não havia modo algum de arrancar o vírus catalítico da besta: minha própria companhia. 

Engraçado mesmo é que nela eu morri pisoteada por pés invisíveis, metade silenciosos e novamente calados. Igualmente muda como eu. Sou oca por dentro, aqui há um espaço preenchido por uma sentença, palavras barulhentas que nada conseguem dizer, frases saltitantes que picam como abelhas em assassinato provado e condenado. Esse vazio cresce, interno, inunda com delicadeza, ao mesmo tempo, repleto de uma brutalidade domesticada, as últimas esperanças revestidas do meu brio ferido. Tenho pressa em fitar com eloquência e desventura, o abismo, mas este perde-se com facilidade incomum nos traços intricados da minha face, na voz rouca que umedece os lábios rachados, baú tão meu que me engole com afinco, sem trégua. Luto. 

Vão.

Fútil.

Buraco oco da vida, fundo lacunoso da alma, perfuração dificultosa da morte: estas são apenas as constatações esquecidas que me fizeram inteira na tragédia que fui, nas feridas entreabertas que coçam com ardência, no sabor amargado que afaga as bolotas inchadas da língua, na firmeza amolecida da desgraceira habitual que hoje nunca me escapou. 

Vazia.

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