a-Mar.

16 junho 2019

Eu o amei na magnitude do meu silêncio, sentimento internalizado sem chance de escape, quase sugado pela espera, a teimosia do tempo me privando a descoberta. Não o conhecia antes do nosso primeiro encontro, aquele confronto físico, corpo a corpo, o olhar azulado dele encarando a vastidão castanha do meu. 

Junção infinita de cores e sensações, calor me subindo. Intimidade ingênua desenhada na ponta dos nossos dedos quando o toquei, ainda morno dos raios intensos do meio-dia. 

Éramos partículas não apresentadas um ao outro, ocupando espaços distintos, embora achando que o sentia em absolutamente tudo. Eu ansiava por vê-lo, meu coração golpeava sedento um desejo, uma tocadela para experimentar o gosto selvagem do nosso amor. 

Até então eu não entendia as nuances em tom de azul que se projetavam através de mim. Seu olhar era o todo que eu encarava e sentia, por cada lacuna que olhava, a eferverscência descortinada de sua profundidade me paralisando os gestos, os remorsos e os desgostos. 

Havia tamanha familiaridade nos espaços em que nos encontrávamos e depois em nossos desencontros, onde fazíamos ondulações constantes, sendo eu um corpo de matéria estática, e ele movediço, inquieto, agitava-se como um pássaro em busca de pouso, mas não parava nunca de desabar na margem, no cais, em mim.

O corpo dele, às vezes em velocidade atômica e outras vezes inerte, se debatia no meu peito, agitava-se pela força da ventania sob minha pele nua, descoberta, sentia-o frenético, ele fazendo-me perder as minhas referências espaciais quando eu adentrava com maior fôlego as suas particulares, esquecendo a superfície, meus pulmões quando em dor implorando para voltar. E eu obedecia. 

Gotículas salgadas me entortavam os lábios quando o beijava sem querer, inevitável o encanto palpável da sua beleza. Ali, coberta pela sua saliva, o suor das entranhas do mundo me sacudindo o corpo, fui testemunha da fraqueza humana. Sua maré branda me saldando, em mansidão extasiada, a paixão em euforia interna em mim. 

Os tapetes veludos de casa transformaram-se em areia, acariciando-me a pela desnuda, ele brincando de cócegas, inundando-me de partículas diminutas pelo corpo, sempre bem vindas, ali era um deposito de porções infinitamente menores, seria eu também um desses fragmentos que pela gentileza do universo se pôs ali? 

Sob minha cabeça, e sob o castelo de contemplação que se construía de canto a canto, o sol, admirava-nos, um novo grito silencioso saltou da minha face exposta a sua luz, o seu brilho forte, tenaz, lampejante, parecia que também me saudava ao longe, como se suspirasse em suas faíscas fumegantes nosso encontro. 

Encontrei-me inteira em águas cristalinas, e aprendi a amar o mar como se fossemos só, quando pela primeira vez juntamos corpo e líquido, sólido e fluído, um belo impar. 

Nunca mais me senti só. 

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