Homem histórico

15 junho 2019

Circuito-fechado é o homem que fala. Cabeça quadrática que gesticula em salivas gordurentas de mal-dizer, escárnio, ironia. Diz o que não sabe. Linguagem escassa, com o excesso do menos. Segue estrada unilateral, não aceita atalhos ou encolhimentos. Opiniões do avesso ele próprio esmaga, sentencia um julgamento próprio, não aceita ajustes, enxerga, mas não vê; sente, mas não se sensibiliza. Estender a mão? Está mais para atravessar reto, sem nem olhar. Nem faz questão disso. Nunca sente muito. Quando sente, é tesão, sexo, desejo, atração. Líquido como o tempo, escorre das mãos feito água, óleo escorregadiço, incerto. Bauman acertou. Fagulha em combustão: acaba rápido. 

No limite do instável. Sossegado demais. De vez em quando leviano. Esconde-se frágil, ninguém percebe que é quebradiço. Estático como uma múmia, paralisado no tempo: parou de avançar. Defende um governo improgressivo, com unhas e dentes veste azul e verde como se assim pudesse não empobrecer a alma, quando esta já caiu em desuso. Imobilizado em próprias verdades, as retém com fidelidade: incapaz de traição. 

Não pensa duas vezes antes de tecer o fio da crítica, da discórdia. Aceitação nenhuma o fez mais compreensivo, intolerante se tornou o homem sem perspectiva alguma de permuta, alternância de ideias impossível, outra existência quem sabe. Caixa fechada, quadrilátero que termina e começa no mesmo ponto, retrógrado na fala, nos gestos, no viver. Não aprende, saber raiz quadrada de cento e quarenta e quatro e a fórmula de baskara, teorema de pitágoras, a fórmula da água, diz não fazer diferença, poderia fazer uma fogueira de Dante, Schopenhauer, Freud, Nietsche, Jesus Cristo: nada mudaria. Ignorante por escolha própria, livre-arbítrio no aborrecimento constante. 

Uniformizado no pensar. Não pare conceitos, mal engole o que já sabe, reclama do que não entende, descarta o que não lhe serve. Cospe a mentira e quando verdade, permanece em silêncio. Circuito-fechado. Nunca leu Camus, mas é estrangeiro: um desconhecido de si. Anacrônico. O cúmulo da tradição feito chiclete na palma das mãos, atrasado. Quadrangular. Resmunga dos males do mundo, e determina em frescura o mal-estar do século. A cultura, mal investimento, a arte, um gasto desnecessário, a educação, uma burrice de prioridade. Incapaz de pensar outro, bloqueado de ponto de vista, inviável no diálogo, retraído em tudo. A única pergunta importante de um circuito-fechado: o Corinthians joga quarta?

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