Amar.

02 maio 2019

02 de maio, em algum lugar do atlântico norte, 2023. 

Escrevo-te mais uma vez, mas endereço esse compilado de frases e palavras a pequena e enigmática tristeza que há no ato de viver. 

Busco refúgio nas intermináveis linhas que formam este pedaço de papel, esperançosa de que todas as tuas linhas vazias preencham-se sem lamúria dos meus sentimentos indefiníveis que carrego como estacas dentro do peito. Desde ontem pego-me pensativa. 

E pensar, em seu sentido mais profundo, dói. 

Sei de modo totalmente consciente que amar exige certo nível de esforço, dedicação e empenho, permitir-se sentir com tamanha lucidez um encargo como esse não é uma tarefa que se construía de uma hora para outra, e não será na passagem de insuficientes dias que o coração deixará de amar quando não for o bastante continuar amando. 

Entendo perfeitamente que amar é, por diversas vezes, complicado. Se buscamos certezas irrefutáveis, e convicções irreparáveis, ou se nos trancamos em dogmas intransponíveis, não estamos ainda preparados para tal, porque amar é presumir a ciência da dúvida, da descrença, do ceticismo implícito. Nem tudo vai sair como queremos, talvez cheguemos perto, mas aquele pouco, por vezes, vai esgotar a paciência e nos arrancar na nossa tentativa. 

De todas as definições já formuladas a cerca do amar, a que nunca esqueci foram as palavras do psicanalista Lacan: amar é dar o que não se tem a alguém que não quer. Existe outra definição mais verdadeira que a certeza de que amar é acima de tudo oferecer o que nos falta para alguém que não possui o menor interesse de aceitar? 

Há quem tenha sorte, para estes, resta o eterno agradecimento ao universo, esses não precisarão se matar na exaustão de um sentimento não reciproco, nem chorar rios entre madrugadas silenciosas, nem despertar com a trilha de lágrimas sobre a face escurecendo as orelhas embaixo dos olhos tristonhos . Comigo, tenho somente a sorte da maquiagem corrigir os erros e acertos do coração. 

Para mim, restou-me sentar e esperar os ferimentos fecharem-se, os cortes cicatrizarem e o sangue parar de esmurrar a pele ferida, porém não há pedaço de carne que se regenere sem que a alma se desfaleça em dor também. A vida é o que sombra quando tudo em você é esmagado por tantos outros descasos. Não adiante enfurecer-se pela dureza da vida, querer a morte passional de si mesmo. Sofrer é a grande inevitabilidade da existência. 

Engulo o sofrimento como uma água podre, e meus órgãos enfurecem com tal afronta, mas nada posso fazer a não ser seguir em frente. Ah, sempre em frente. Quem formulou essa preposição não poderia jamais presumir a grande dor que existe. Amar é, afinal, quebrar-se e continuar. Talvez remendar os poucos casos ainda intactos com algum feitiço incomum. 

Amar é a grandiosidade da vida embutida em uma dose de longo sofrimento, enquanto por alguns até vale a pena sofrer, por outros, nem tanto. 

"Vejo-o em uma cama de hospital, internado pela mazela da vida, o coração traumatizado e quase insuficiente pelo Prolapso Mitral, me dizendo que houve tremores, fortes dores no peito, febre, uma injeção de dipirona, medicamento, sem visita, somente um acompanhante, e eu deixo para lá a aquela iminente conturbação dele, graças a sua indiferença. Não consegui evitar o salgado das águas extrapolando dos meus olhos, a insegurança me perfurando a continuidade da concentração, a efêmera sensação agonizante de pouca importância que foi dada a minha preocupação, e desligo-me de um sentimento que nunca foi exclusivamente meu." 

Esta carta não foi escrita com tinta, porém com os longos e intermináveis silêncios que formaram grande parte dessa história. 

Com amor,
sua Lua

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