Quando eu sumir do whatsapp.

19 maio 2019

Odeio essa sensação estranha que me ocorre toda vez que acordo e vejo uma mensagem pairando no topo da tela do celular, como uma espécie de aviso sobre as obrigações que a sociedade nos impõe: a necessidade de manter uma conexão em tempo integral com pessoas que não se preocupam nenhum pouco conosco, responder o maior número possível de mensagens em grau absurdo de aleatoriedade, realizar a leitura compreensiva da ininterrupta avalanche de mensagens que aparecem sempre que ligamos o wi-fi, a insistência de digitarmos uma resposta sempre que o outro deseja que o façamos. 

É essencial para a comunicação, ouço dizerem, mas qual tipo de comunicação, eu questiono, essa em que o trabalho não acontece somente no ambiente de uma grande corporação, mas o carregamos conosco dentro de um pequeno aparelho tecnológico no bolso, momento este em que uma mensagem nos acorda de um sono ainda nem existente para resolvermos algum bo urgente do outro lado da cidade, enquanto permanecemos com os olhos pregados em uma tela retangular por um tempo sem fim, trazendo todo o trabalho para casa. 

Em uma dessas manhãs, por exemplo, abri o aplicativo com certa implicância, aquele sentimento nostálgico de que deveria poupar minha solidão, ou solitude, daquelas, desculpe o termo usado, mensagens malditas de bom dia, os recados no formado de imagens felizes, animadas e repletas de uma satisfação que me pergunto ser possível às 6h da manhã, ou se existe uma necessidade constante de autoafirmação para mostrar que é privilegiado em meio a uma multidão de gente mal humorada.

Por uma questão de autopreservação, distanciamento proposital, e necessidade de defender o restante da minha privacidade, desativei aquele famoso “tick azul”, a tal confirmação de leitura, e aquela pressão psicológica advinda do “visto por último"; permaneço em alguns grupos pela simples preguiça de sair, e pela evitação de comentários e questionamentos pela saída, se não fosse isso, adeus, alguns são realmente necessário, admito, talvez do curso, e o meu próprio grupo solitário usado como blocos de nota e cabo ubs para o whatssapp web.

Me pergunto quanto tempo mais precisaremos gastar olhando uma tela insignificante, uma rede social altamente tóxica, para percebemos que uma máquina tecnológica, um aplicativo bilionário feito para almas empobrecidas, suga a conexão interna enquanto nos aproxima de um abismo, um vazio no meio da sociedade; às vezes sinto falta de mim, de estar comigo, sem que o outro também esteja presente, e quando digo outro, me refiro a essas pequenas criaturas insuportáveis que não conseguem entender o verdadeiro significado do vácuo, uma resposta não respondida é evidência o bastante para encerrar qualquer assunto, pelo simples direito que tenho de não precisar justificar absolutamente nenhuma das minhas escolhas. 

Gente mal intencionada que faz questão de interromper o isolamento alheio, aquele momento tão nosso em que se tem a pretensão de colocar a cabeça no lugar, olhar para dentro, fazer uma meditação no estilo zen-budismo, preparar um café na manhã sem a pressa de um dia cansativo, para tudo ser interrompido por uma mensagem capaz de sabotar a paz interior, e nos dar a sensação estranha de que tudo ainda tende a piorar, as relações tendem a morrer lentamente daqui para frente, conhecer alguém nunca te tornou tão fácil como nos dias atuais, e isso é mais trágico do que um alívio. 

Consigo contar no dedo os amigos que vale a pena ter no whatssapp, o restante, que me perdoe, um dia ainda excluo e nem foto minha mais irão ver. 
@lua_intensa

Esses malditos quilômetros que nos separam

10 maio 2019

às vezes você esquece que carrego uma parte do mundo dentro de mim, que sou tão inflamável quanto uma chama próximo de algum ambiente tóxico, que sou forte e ao mesmo tempo vulnerável. Algumas vezes eu também sou como você, tenho medo de sair lá fora e acompanhar o ritmo de um dia agitado, observar os ônibus lotados surgindo um atrás do outro em linha reta no lado esquerdo da avenida principal, você tem medo que chova porque um guarda-chuva pesa demais na mochila, respira com dificuldade quando imagina o fone de ouvido esquecido no quarto. 

tenho medo do desconhecido do mesmo jeito que um bando de pessoas estranhas te apavora, sinto o coração arrancado do peito fugindo pela boca, remoendo o peito em pequenos estilhaços que não controlo ou diminuo. sou apenas uma ótima atriz que finge bem, aquela que coloca uma máscara para ocultar o seu pequeno pânico desfigurado em poucos instantes. me escondo como você em um pequeno cubículo que mal cabe dois corpos como o nosso, porém pertenço a classe fingidora. 

somos tão parecidos, porém não acredita que sejamos o mesmo lado da moeda quando tudo o que você consegue enxergar são apenas as minhas contrariedades expostas, os traços que por natureza não me definem, mas que você insiste em atribuir a mim. somos tão próximos, mas esquecemos a nossa proximidade quando finge - tão bem quanto eu - que meu jeito é indiferente, que os desejos que compartilho sempre pertencerão apenas a mim, e nunca a você. 

os quilômetros são a tortura, porque os sinto até mesmo quando seguro a sua mão, ou quando me entrego a você em um abraço apertado que suga a minha alma. fingo que tudo bem ser assim, sem contar que a distância que existe ainda me destrói, me permito aceitar. o pior tipo de amor é aquele que aceita o tudo com medo de não ter nada. parei de culpar-me pelos quilômetros estreitos e sufocantes que me atacam o fígado, mas o que posso fazer eu, a não ser aceitar que tentar não adianta, que lutar não resolve, e mudar já não adia o fim. 

não o fim de verdade, mas aquele final que acontece quando ainda estamos juntos. queria poder ir além do que as palavras me permitem, mas tenho apenas estas para me aliviar a angústia que causa a distância em mim. não somos dois corpos juntos, somos duas almas separadas por alguns quilômetros de distância. me permita ir além algum dia, diga sim quando o amor estampar a beleza das cores e a certeza de que pertencemos um ao outro, sem que haja um caminho tão espaçado entre nós. 

sua amada.

Amar.

02 maio 2019

02 de maio, em algum lugar do atlântico norte, 2023. 

Escrevo-te mais uma vez, mas endereço esse compilado de frases e palavras a pequena e enigmática tristeza que há no ato de viver. 

Busco refúgio nas intermináveis linhas que formam este pedaço de papel, esperançosa de que todas as tuas linhas vazias preencham-se sem lamúria dos meus sentimentos indefiníveis que carrego como estacas dentro do peito. Desde ontem pego-me pensativa. 

E pensar, em seu sentido mais profundo, dói. 

Sei de modo totalmente consciente que amar exige certo nível de esforço, dedicação e empenho, permitir-se sentir com tamanha lucidez um encargo como esse não é uma tarefa que se construía de uma hora para outra, e não será na passagem de insuficientes dias que o coração deixará de amar quando não for o bastante continuar amando. 

Entendo perfeitamente que amar é, por diversas vezes, complicado. Se buscamos certezas irrefutáveis, e convicções irreparáveis, ou se nos trancamos em dogmas intransponíveis, não estamos ainda preparados para tal, porque amar é presumir a ciência da dúvida, da descrença, do ceticismo implícito. Nem tudo vai sair como queremos, talvez cheguemos perto, mas aquele pouco, por vezes, vai esgotar a paciência e nos arrancar na nossa tentativa. 

De todas as definições já formuladas a cerca do amar, a que nunca esqueci foram as palavras do psicanalista Lacan: amar é dar o que não se tem a alguém que não quer. Existe outra definição mais verdadeira que a certeza de que amar é acima de tudo oferecer o que nos falta para alguém que não possui o menor interesse de aceitar? 

Há quem tenha sorte, para estes, resta o eterno agradecimento ao universo, esses não precisarão se matar na exaustão de um sentimento não reciproco, nem chorar rios entre madrugadas silenciosas, nem despertar com a trilha de lágrimas sobre a face escurecendo as orelhas embaixo dos olhos tristonhos . Comigo, tenho somente a sorte da maquiagem corrigir os erros e acertos do coração. 

Para mim, restou-me sentar e esperar os ferimentos fecharem-se, os cortes cicatrizarem e o sangue parar de esmurrar a pele ferida, porém não há pedaço de carne que se regenere sem que a alma se desfaleça em dor também. A vida é o que sombra quando tudo em você é esmagado por tantos outros descasos. Não adiante enfurecer-se pela dureza da vida, querer a morte passional de si mesmo. Sofrer é a grande inevitabilidade da existência. 

Engulo o sofrimento como uma água podre, e meus órgãos enfurecem com tal afronta, mas nada posso fazer a não ser seguir em frente. Ah, sempre em frente. Quem formulou essa preposição não poderia jamais presumir a grande dor que existe. Amar é, afinal, quebrar-se e continuar. Talvez remendar os poucos casos ainda intactos com algum feitiço incomum. 

Amar é a grandiosidade da vida embutida em uma dose de longo sofrimento, enquanto por alguns até vale a pena sofrer, por outros, nem tanto. 

"Vejo-o em uma cama de hospital, internado pela mazela da vida, o coração traumatizado e quase insuficiente pelo Prolapso Mitral, me dizendo que houve tremores, fortes dores no peito, febre, uma injeção de dipirona, medicamento, sem visita, somente um acompanhante, e eu deixo para lá a aquela iminente conturbação dele, graças a sua indiferença. Não consegui evitar o salgado das águas extrapolando dos meus olhos, a insegurança me perfurando a continuidade da concentração, a efêmera sensação agonizante de pouca importância que foi dada a minha preocupação, e desligo-me de um sentimento que nunca foi exclusivamente meu." 

Esta carta não foi escrita com tinta, porém com os longos e intermináveis silêncios que formaram grande parte dessa história. 

Com amor,
sua Lua