O Grande Mentecapto | Fernando Sabino

10 abril 2019

O Grande Mentecapto de Fernando Sabino é uma mistura de sentimentos, gostos e expressões, e ao longo da resenha vou explicar porque o considero uma combinação de várias características, mas por enquanto digo que a sua leitura me trouxe uma perspectiva nova de humor com tragédia, o que é possível de perceber em cada página a partir das aventuras e desventuras de Geraldo Boaventura mais conhecido ao longo da história e por todos os lugares onde passa como Geraldo Viramundo, o grande protagonista dessa longa jornada nos mais inusitados cantos de Minas Gerais. 

FICHA TÉCNICA
Autor: Fernando Sabino
Título: O Grande Mentecapto
Ano: 1979
Editora: Record
Idioma: Português

Geraldo Boaventura antes de se tornar Viramundo, foi uma criança levada como qualquer outra, viveu uma infância repleta de brincadeiras e divertimento, porém o seu grande feito durante essa época foi conseguir parar um trem que não fazia nenhuma parada em Rio Acima, localidade de Minas Gerais onde morava com sua família a beira de uma estrada, e apesar da forte emoção vinda dessa grande façanha, outra tragédia inusitada acabou se desenvolvendo a partir daí, o que impulsou a decisão de Geraldo Boaventura de ir para um seminário em Mariana. 

Então conhecemos a história de um rapaz que se transforma finalmente em um homem, e enquanto vamos nos aprofundando em suas várias peregrinações após o fracasso em se tornar padre, o observamos perder a sua essência ao longo de suas idas e vindas sem rumo a diversas cidades de Minas Gerais, entre elas Ouro Preto, Barbacena, Juiz de Fora, Uberaba, São João Del Rei, e inúmeras outras que acolhem tão rapidamente o grande mentecapto em suas mirabolantes aventuras. Em cada passagem Geraldo Viramundo conhece pessoas, faz amizades, arruma grandes confusões, inventa soluções para os mais diversos equívocos, e se coloca em situações de perigo. 

Um andarilho que vaga sem rumo em direções que não conhece, desbravando o desconhecido na intenção de cumprir o seu destino, mas que ao longo de sua caminhada perde-se de si mesmo, questionando qual o grande sentido de tudo o que vivia, de cada detalhe no qual se deparava. Geraldo Viramundo é um sujeito inocente, possuidor de um bom coração que ainda acredita na bondade do ser humano, ingênuo a ponto de não conseguir perceber a maldade alheia e a perversidade tão intrínseca a nós, mas também é um herói brasileiro, que embora sofredor e humilhado, continua de pé. 

De acordo com o dicionario online de português o significado de mentecapto: aquele que não possui nem utiliza a razão; mentalmente desorganizado; sem juízo; maluco: com a doença perdeu a capacidade de pensar logicamente, tornando-se um mentecapto, escassez de capacidade intelectual; falta de inteligência; tolo, idiota.

Será que em algum momento de nossas vidas não deixamos de ver com clareza o que há por detrás de certos comportamentos alheios? Não fomos grandes mentecaptos como Geraldo Viramundo? Não caminhamos com a mesma insistência do personagem sem ao menos saber qual rumo estávamos seguindo, ou para qual destino estávamos sendo conduzidos? Será que existe uma definição para loucura, e se existe, será que podemos chamá-lo assim?

Mesmo vagando alheio as grandes incertezas da vida, e em meio a todas as angústias presentes no Estado de Minas Gerais, em alguns momentos de sua jornada, este percebe e toma consciência de sua própria "loucura". Geraldo Viramundo era um grande amante da literatura, e conhecedor de um vernáculo admirável e também questionável, contentava-se com o pouco que possuía e para ele bastava a simplicidade da vida. 

O Grande Mentecapto nos apresenta sentimentos de empatia, de compreensão, trás no gosto da própria leitura uma sensação de humor e divertimento, embora haja uma expressão trágica em cada terrível e infeliz acontecimento de Geraldo Viramundo, principalmente quando este encontra o seu grande "destino". 

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