Desumanização | Valter Hugo Mãe

18 abril 2019

Desumanização é a primeira obra que li do autor Valter Hugo Mãe, um livro trágico e ao mesmo belo, sua linguagem poética me encantou, são linhas repletas de um sentimento único, revelador e significativo para qualquer leitor que mergulhe na história que é contada com tanta singularidade, porém é uma leitura que requer atenção, pois cada palavra precisa ser assimilada e incorporada à medida que o lemos. 

FICHA TÉCNICA
Autor: Valter Hugo Mãe
Título: Desumanização
Edição: 2° edição, 2014
Local: Portugal
Editora: Cosac Naify

Valter Hugo Mãe é um escritor português, nascido em Angola, porém radicalizado em Portugal. Formou-se em Direito e concluiu sua pós-graduação em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Ao longo de sua carreira como escritor, ganhou diversas prêmios em reconhecimento a sua grande capacidade de nos contar um universo intensamente marcado por obras fascinantes e arrebatadores, capaz de nos trazer uma nova perspectiva e compreensão daquilo que não estamos habituados. "Por vezes, tive a sensação de assistir a um novo parto da Língua Portuguesa", estas são palavras citadas por José Saramago durante a entrega do Prêmio Literário José Saramago. 

Desumanização é narrado a partir da concepção de mundo visto por uma criança, Halla, após ser obrigada a enfrentar a morte repentina de sua irmã, Sigridur, despedaça pela perda, ao regresso a um sentimento de falta e vazio, pela necessidade de torná-la eterna dentro de si; ausência esta que a devora inteiramente, que a faz tomar ciência de novas sensações, descobertas, pensamentos, o luto como um processo diferente para cada indivíduo, questionamentos, a uma apropriação forçada de amadurecimento, onde idade não significa unicamente o avançar temporal, mas a uma necessidade incontestável de lidar com as decepções. 

"Talvez a tristeza fosse um modo de amadurecer. O tempo também se conta pelos desgostos." 

Percebemos ao longo da narrativa a composição de parágrafos complexas, mas que não deixam de nos causar impacto, que fazem a nossa alma sangrar em demasia, que instauram um sentimento de reconhecimento e empatia com a desolação da personagem. Halla transforma-se de modo contínuo durante todo o texto, cresce (internamente) e aprende novas maneiras de enxergar o mundo e toda a circunstância imposta pela vida, como também adota diferentes formas de lidar com a perda e encarar a morte - que em nenhum momento deixa de ser sentida. Sigridur, sua irmã, torna-se um espaço vazio, porém a protagonista tenta, de diversas modos, preservar a sua essência através de memórias e lembranças, e da busca incessante por senti-la em seus próprios gestos.

Halla se vê em um local familiar onde não há aceitação, inclusão e pertencimento, sente-se perdidamente desconectada, e toda o preenchimento que Sigridur atribuía à sua vida desaparece do plano físico, permanecendo vivo somente em longas dores e pesares que começa a carregar dentro de si. Conhecemos a figura materna, perturbada e entristecida, que em nenhum momento oferece o que uma mãe deveria proporcionar. Halla, em um contexto totalmente novo, encontra proteção e um refúgio para a amenização de sua angústia em braços que até então acreditava ser incapaz de dar-lhe todo o alívio necessário, Einar, personagem que passa a ser parte essencial na história e da vida da personagem, e em uma nova esperança que passa a crescer dentro de si. 

Particularmente, a estrutura longa dos parágrafos me deu a sensação de estar fazendo uma leitura contínua, sem interrupções, e os diálogos são apresentados como se ocorressem na própria mente da personagem devido ao fato de não serem sinalizados com travessão ou em um parágrafo a parte, mas identificados pela própria protagonista. 

Além disso, na obra Desumanização, são elencadas características que enaltecem a grandeza da Islândia, cenário onde os conflitos se desencadeiam. A narração nos coloca diante da paisagem intensa e natural dos fiordes, vulcões e charnecas, como se o país ganhasse vida à medida que concluímos a sua leitura. Existem descrições que tive grande dificuldade de imaginar ou fantasiar por desconhecer a imensidão da Islândia. Afinal, nenhum país nos soa tão familiar como o Brasil, não é? 

Minha intenção não era tornar essa resenha grande, porém existem tantos aspectos importantes que seria impossível referenciar todos aqui, embora eu acredite que todos sejam essenciais. O autor trata de questões universais, como amor, ódio, descoberta, sexo, perda, também conceitos e definições para o que conhecemos e chamamos de deus, de poesia, da necessidade de fuga. Em cada página, parágrafo, ou frase há algo a ser interpretado e sentido. É impossível não vivenciar a carga reflexiva que há em cada palavra, porém somente se entregando a sua leitura é que podemos sentir toda sua expressão. 

"Eu senti que não tinha forças para ser melhor, só sabia seguir por inércia o que a vida me colocar diante."

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