Julieta Imortal | Stacey Lay

24 abril 2019

Uma das minhas últimas leituras foi o livro Julieta Imortal, da autora Stacey Jay. Terminei lendo suas 237 páginas em menos de uma semana, e logo em seguida já pensei em indicá-lo no blog e comentar minha experiência ao lê-lo, como sempre procuro fazer com as histórias que mais gosto, porém ler o romance de Romeu e Julieta em uma perspectiva totalmente diferente do que estamos acostumados com Shakespeare, me deixou ansiosa para começar o mais breve possível essa resenha. 

Nessa narração, descobrimos que os acontecimentos que deram tanta fama ao dramaturgo e escritor Shakespeare com a história de amor entre Romeu e Julieta é uma farsa, é mais uma mentira contada para distorcer a verdadeira tragédia. Julieta Capuleto não tirou sua própria vida em um ato de amor. Ela foi vitima de um assassinato cometido pelo homem que mais amava e confiava, Romeu Montecchio, e sua horrível escolha foi apenas por querer a imortalidade da amada, porém o jovem nunca imaginou que a eternidade a transformaria em uma agente dos Embaixadores da Luz, um grupo enviado para proteger os inocentes e manter a segurança que os Mercenários ameaçam tirar das almas humanas, porém Romeu se transforma em um como consequência do seu sacrifício, e o seu principal objetivo por mais de setecentos anos é destruir o coração da humanidade e preservar a destruição enquanto luta contra a mulher que mais amou. 

Depois de setecentos anos tentando combater as ações destruidoras dos Mercenários, Julieta passa a ocupar temporariamente o corpo de uma jovem chamada Ariel, uma garota sem muita expectativa sobre si mesma, que sofre por se achar feia e diferente, o que a faz ser anti-social e tímida. Julieta tenta mudar sua perspectiva enquanto usa o seu corpo para encontrar um par de almas gêmeas e protegê-los das ações de Romeu, que ao longo da narrativa irá fazer o impossível para convencê-los a colocarem fim ao amor por meio da morte de um dos amantes. 

Julieta é uma garota ousada e forte, porém a traição de Romeu a tornou tão amarga e incapaz de amar novamente qualquer outro homem, Uma escolha errada a destruiu por séculos, e por mais que arriscasse cada reencarnação tentando proteger as almas gêmeas que estavam destinadas a ficarem juntas, Julieta sempre sentiu um vazio, algo que a deixava distante de qualquer sentimento, mas isso até a sua ultima reencarnação, até conhecer Ben. E parece que algo mudou para sempre. Ela finalmente aprendeu a amar novamente, a deixar o seu coração aberto para quem alguém o habitasse. Julieta se sentiu pronta para confiar e amar. 

Mas ela e Ben não estão seguros. Não por enquanto. É perigoso se permitir sentir desse jeito, já que os Mercenários a querem morta por ser uma simples Embaixadora. Romeu tenta persuadi-la com algumas mentiras, porém ela nunca se imaginou acreditando em suas palavras novamente, para ela, é preferível a morte do que confiar no cara que a matou. O inacreditável da historia é que Romeu a salva do pior destino que Julieta poderia ter. Um jovem arrependido de todos os pecados, e pronto para redimir seus erros e ir atrás do perdão, mas o lado negro ao qual pertence não permite que seus arrependimentos sirvam para alcançar a paz que não merece, mas que deseja a qualquer custo. 

Me senti totalmente empolgada para chegar ao seu final, e algumas partes me surpreenderam mais do que outras, e algumas descobertas me fizeram entender algo que já sabia: o quanto o ódio pode matar alguém lentamente, mesmo que não seja uma morte física. Infelizmente, minha opinião se resume a chamar que a narrativa teve muitas partes confusas, partes em que era preciso voltar as páginas algumas vezes para entender o contexto, e algumas pontas soltas que talvez tenham passado despercebido por outros leitores, porém alguns detalhes fazem toda a diferença. Tirando esse pequeno deslize, a narração flui com naturalidade e suspense. É impossível não criar algumas hipóteses para o final dessa história de amor e ódio, guerra e paz. 

Escrever.

Imagem: via reprodução

Por cada lugar onde passo, questionam-me sobre o meu processo de escrita, o que significa definir-me como escritora e como sou capaz de conciliar tal atribuição as demais áreas da minha vida, afinal, em contrapartida, sou também estudante de psicologia e leitora voraz de inúmeros livros, oficialmente desde dois mil e onze, quando resolvi aventurar-me nesse universo imaginativo e decidi, após experimentá-lo, nunca mais sair. 

Possuo paralelo a estas aspirações, outros hobbies, como o fascínio gigantesco pela filosofia, o que que me permite pensar em uma possível outra graduação após psicologia, tento também aprimorar o meu gosto por cinema, porém as inúmeras responsabilidades e o meu laço inquebrável com a vida intelectual talvez boemia não me possibilitam assistir tantas séries e filmes e posteriormente indagar de modo reflexivo a respeito de cada uma, embora sejam uma grande fonte de inspiração e saber. Culturalmente falando, estou em um processo constante de transformação e de apropriação de conhecimento e sabedoria, mesmo que seja da maneira mais difícil que alguém pode aprender: quebrando a cara ou se decepcionando.

Porém, a escrita, esse ato de bravura e de coragem, ocupa uma parte excepcional da minha vida, e a cada dia, seu impacto e significado aumenta proporcionalmente à medida que permito-me transformar o sentido que escrever tem para mim. Sempre ouvi dizer que devemos buscar nosso propósito e nos agarrar a isso, essa missão deve também consolidar ou formar uma parte de nós, no meu caso, escrever ocupa tudo que há em mim. Todas os vazios e os ocos que a vida não se encarregou de preencher, minhas partes faltantes, ou a ausência de coisas que o mundo inteiro consideraria como necessidade básica, a escrita completa.

Assumi a identidade de escritora há alguns tantos anos, embora meus primeiros registros escritos sejam datados de uma infância já marcada por questões inquietantes e particulares. Adotei a escrita como meu norte e porto-seguro oficialmente ao final de dois mil e onze, porém já apresentava tendências a essa escolha bem antes, quando me apropriei das palavras como se eu abraçasse meu verdadeiro propósito e aceitasse minha essência, ainda me pergunto se não foram elas [as palavras] que me escolheram. 

Escrever é parte essencial de quem eu sou, é o que me permite enxergar a vida desse jeito, ao mesmo tempo triste e feliz, como foi citado em as vantagens de ser invisível, é através das anotações, rabiscos e rascunhos feitos entre um ano e outro, um instante e outro, que me refaço como ser humano, que me descubro como mulher, que me permito ser conduzida por uma intensidade muitas vezes sufocante, por uma raridade que o mundo ainda desconhece, que exploro o meu lado criativo, extrapolo as sensações superficiais, adentro a profundeza de emoções que para muitos é assustadora.

Escrever é colocar a vida e todas as suas camadas, em palavras.

Sobre os personagens. Desenvolvo inúmeros, e eles acabam compondo contos, crônicas, prosas, poemas, narrativas curtas e micro histórias (na maioria das vezes, crônicas) e todos com traços peculiares, extraordinários, qualidades horríveis, aspectos desprezíveis, atitudes equivocadas, muitos deles estão sedentos por vingança, mergulhados em tristeza, marcados por decepções, outros acreditam que merecem uma segunda chance, estão crentes do perdão, sente-se perdidos no mundo, acreditam que o suicídio, as drogas e o cigarro são a resposta, outros possuem uma esperança admirável e coragem invejada, outros eu faço questão de matar, ou de permitir um final feliz, mas todos possuem algo em comum: todos escolheram seus próprios destinos, eu apenas guio as palavras para tal finalidade. 

Escrever é isso: escolher entre incontáveis possibilidades, quebrar barreiras, inventar pontes, desconstruir o utópico e entregar o possível, ou vice-versa, é a experiência contada, seja em primeira ou terceira pessoa, ou com um narrador onipresente relatando os acontecimentos, um cenário nova-iorquino ou a desgraça da zona leste. Quando escrevo, abraço as minhas interioridades, as  limitações e fraquezas existentes em mim, arranco-me daquela zona inerte de conformismo, da irrefutabilidade das ideias, da não aceitável do que é tangível para alcançar a exatidão do impossível, seja o amargo das descobertas ou o doce da própria invenção.  

Escrevo porque a vida também não basta, sou descontente com as definições, imposições, os manifestos inalteráveis, sou contra a ideia do não refletir, do não questionar, do significado pronto engolido, preciso de mais, e escrever me possibilita o mais, não de maneira fácil, como falou Pablo Neruda, escrever é fácil, você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias. A dificuldade está nas ideias, no pensar, no ato de viver em prol da criatividade, da transcendência das palavras, na ternura ou tragédia que pode haver nelas. Viver e escrever são somente sinônimos da mesma coisa, e ambas exigem criatividade. 

Apenas descobrimos o que é escrever, quando escrevemos, e apenas conhecemos o verdadeiro sentido da vida e o seu propósito, quando a vivemos. Encerro as minhas intermináveis palavras com um comentário marcante de Gabriel Perissé (doutor em filosofia da educação e mestre em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo): "há dois tipos de escritores: os que dizem sim a vida e os que dizem não."

Eu disse sim.





Desumanização | Valter Hugo Mãe

18 abril 2019

Desumanização é a primeira obra que li do autor Valter Hugo Mãe, um livro trágico e ao mesmo belo, sua linguagem poética me encantou, são linhas repletas de um sentimento único, revelador e significativo para qualquer leitor que mergulhe na história que é contada com tanta singularidade, porém é uma leitura que requer atenção, pois cada palavra precisa ser assimilada e incorporada à medida que o lemos. 

FICHA TÉCNICA
Autor: Valter Hugo Mãe
Título: Desumanização
Edição: 2° edição, 2014
Local: Portugal
Editora: Cosac Naify

Valter Hugo Mãe é um escritor português, nascido em Angola, porém radicalizado em Portugal. Formou-se em Direito e concluiu sua pós-graduação em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Ao longo de sua carreira como escritor, ganhou diversas prêmios em reconhecimento a sua grande capacidade de nos contar um universo intensamente marcado por obras fascinantes e arrebatadores, capaz de nos trazer uma nova perspectiva e compreensão daquilo que não estamos habituados. "Por vezes, tive a sensação de assistir a um novo parto da Língua Portuguesa", estas são palavras citadas por José Saramago durante a entrega do Prêmio Literário José Saramago. 

Desumanização é narrado a partir da concepção de mundo visto por uma criança, Halla, após ser obrigada a enfrentar a morte repentina de sua irmã, Sigridur, despedaça pela perda, ao regresso a um sentimento de falta e vazio, pela necessidade de torná-la eterna dentro de si; ausência esta que a devora inteiramente, que a faz tomar ciência de novas sensações, descobertas, pensamentos, o luto como um processo diferente para cada indivíduo, questionamentos, a uma apropriação forçada de amadurecimento, onde idade não significa unicamente o avançar temporal, mas a uma necessidade incontestável de lidar com as decepções. 

"Talvez a tristeza fosse um modo de amadurecer. O tempo também se conta pelos desgostos." 

Percebemos ao longo da narrativa a composição de parágrafos complexas, mas que não deixam de nos causar impacto, que fazem a nossa alma sangrar em demasia, que instauram um sentimento de reconhecimento e empatia com a desolação da personagem. Halla transforma-se de modo contínuo durante todo o texto, cresce (internamente) e aprende novas maneiras de enxergar o mundo e toda a circunstância imposta pela vida, como também adota diferentes formas de lidar com a perda e encarar a morte - que em nenhum momento deixa de ser sentida. Sigridur, sua irmã, torna-se um espaço vazio, porém a protagonista tenta, de diversas modos, preservar a sua essência através de memórias e lembranças, e da busca incessante por senti-la em seus próprios gestos.

Halla se vê em um local familiar onde não há aceitação, inclusão e pertencimento, sente-se perdidamente desconectada, e toda o preenchimento que Sigridur atribuía à sua vida desaparece do plano físico, permanecendo vivo somente em longas dores e pesares que começa a carregar dentro de si. Conhecemos a figura materna, perturbada e entristecida, que em nenhum momento oferece o que uma mãe deveria proporcionar. Halla, em um contexto totalmente novo, encontra proteção e um refúgio para a amenização de sua angústia em braços que até então acreditava ser incapaz de dar-lhe todo o alívio necessário, Einar, personagem que passa a ser parte essencial na história e da vida da personagem, e em uma nova esperança que passa a crescer dentro de si. 

Particularmente, a estrutura longa dos parágrafos me deu a sensação de estar fazendo uma leitura contínua, sem interrupções, e os diálogos são apresentados como se ocorressem na própria mente da personagem devido ao fato de não serem sinalizados com travessão ou em um parágrafo a parte, mas identificados pela própria protagonista. 

Além disso, na obra Desumanização, são elencadas características que enaltecem a grandeza da Islândia, cenário onde os conflitos se desencadeiam. A narração nos coloca diante da paisagem intensa e natural dos fiordes, vulcões e charnecas, como se o país ganhasse vida à medida que concluímos a sua leitura. Existem descrições que tive grande dificuldade de imaginar ou fantasiar por desconhecer a imensidão da Islândia. Afinal, nenhum país nos soa tão familiar como o Brasil, não é? 

Minha intenção não era tornar essa resenha grande, porém existem tantos aspectos importantes que seria impossível referenciar todos aqui, embora eu acredite que todos sejam essenciais. O autor trata de questões universais, como amor, ódio, descoberta, sexo, perda, também conceitos e definições para o que conhecemos e chamamos de deus, de poesia, da necessidade de fuga. Em cada página, parágrafo, ou frase há algo a ser interpretado e sentido. É impossível não vivenciar a carga reflexiva que há em cada palavra, porém somente se entregando a sua leitura é que podemos sentir toda sua expressão. 

"Eu senti que não tinha forças para ser melhor, só sabia seguir por inércia o que a vida me colocar diante."

Era Meu Esse Rosto | Marcia Tiburi

10 abril 2019

Era Meu Esse Rosto da autora Marcia Tiburi possui uma prosa excessivamente poética, frases construídas com metáforas e efeitos linguísticos que enriquecem a narrativa e com a inserção de elementos que permitem não apenas uma única interpretação final, porém várias à medida que o leitor concluí a sua leitura, pois são capítulos imbuídos de sentimentos e intensidade emocional, onde há frases que marcam profundamente o texto e que mexem de modo bastante reflexivo conosco.

FICHA TÉCNICA                                                                                                                       
Autora: Marcia Tiburi
Título: Era Meu Esse Rosto
Ano: 2014
Editora: Record
Edição: 2ª edição

Os capítulos são alternados entre a infância do protagonista – uma voz masculina já adulta que conta em uma ordem cronológica diferenciada do que estamos habituados dentro da literatura contemporânea, a sua relação com seus avós, tios, e irmãos em um ambiente marcado pela obsessão com a morte e todos os contornos e expressividades que a envolvem, vendo-a como uma sombra que sempre acompanha o indivíduo – e entre o protagonista adulto que em busca da resolução de pontas soltas que carrega consigo desde a infância embarca em uma cidade que desconhecemos sinalizada apenas pela letra V. 

As duas narrações dissemelhantes se completam, e enquanto uma mostra o início de uma paixão descoberta a partir da máquina fotográfica roubada do tio, a outra nos apresenta a grande necessidade do protagonista em registrar através de sua lente as facetas do que é observável, estatizar as impressões que muitas vezes nossos olhos não permitem perceber. 

É uma obra repleta de complexidade, e existem, por todo o texto, instantes de não entendimento, de reflexões e questionamentos, porém é uma leitura de reconhecimento em um retrocesso em busca do passado, das origens familiares, da memória resguardada e oculta, onde tanto o presente como o passado se complementam, se entrelaçam formando um rosto com fragmentos do que foi. É uma leitura valiosa por nos apresentar um adulto que pelo seu ponto de vista nos apresenta fatos e acontecimentos onde a morte pode ser vista em contraste com a própria vida, como se as duas dialogassem entre si, tal percepção fica clara ao lermos:

não posso dizer que sei a diferença entre a vida e a morte

O Grande Mentecapto | Fernando Sabino


O Grande Mentecapto de Fernando Sabino é uma mistura de sentimentos, gostos e expressões, e ao longo da resenha vou explicar porque o considero uma combinação de várias características, mas por enquanto digo que a sua leitura me trouxe uma perspectiva nova de humor com tragédia, o que é possível de perceber em cada página a partir das aventuras e desventuras de Geraldo Boaventura mais conhecido ao longo da história e por todos os lugares onde passa como Geraldo Viramundo, o grande protagonista dessa longa jornada nos mais inusitados cantos de Minas Gerais. 

FICHA TÉCNICA
Autor: Fernando Sabino
Título: O Grande Mentecapto
Ano: 1979
Editora: Record
Idioma: Português

Geraldo Boaventura antes de se tornar Viramundo, foi uma criança levada como qualquer outra, viveu uma infância repleta de brincadeiras e divertimento, porém o seu grande feito durante essa época foi conseguir parar um trem que não fazia nenhuma parada em Rio Acima, localidade de Minas Gerais onde morava com sua família a beira de uma estrada, e apesar da forte emoção vinda dessa grande façanha, outra tragédia inusitada acabou se desenvolvendo a partir daí, o que impulsou a decisão de Geraldo Boaventura de ir para um seminário em Mariana. 

Então conhecemos a história de um rapaz que se transforma finalmente em um homem, e enquanto vamos nos aprofundando em suas várias peregrinações após o fracasso em se tornar padre, o observamos perder a sua essência ao longo de suas idas e vindas sem rumo a diversas cidades de Minas Gerais, entre elas Ouro Preto, Barbacena, Juiz de Fora, Uberaba, São João Del Rei, e inúmeras outras que acolhem tão rapidamente o grande mentecapto em suas mirabolantes aventuras. Em cada passagem Geraldo Viramundo conhece pessoas, faz amizades, arruma grandes confusões, inventa soluções para os mais diversos equívocos, e se coloca em situações de perigo. 

Um andarilho que vaga sem rumo em direções que não conhece, desbravando o desconhecido na intenção de cumprir o seu destino, mas que ao longo de sua caminhada perde-se de si mesmo, questionando qual o grande sentido de tudo o que vivia, de cada detalhe no qual se deparava. Geraldo Viramundo é um sujeito inocente, possuidor de um bom coração que ainda acredita na bondade do ser humano, ingênuo a ponto de não conseguir perceber a maldade alheia e a perversidade tão intrínseca a nós, mas também é um herói brasileiro, que embora sofredor e humilhado, continua de pé. 

De acordo com o dicionario online de português o significado de mentecapto: aquele que não possui nem utiliza a razão; mentalmente desorganizado; sem juízo; maluco: com a doença perdeu a capacidade de pensar logicamente, tornando-se um mentecapto, escassez de capacidade intelectual; falta de inteligência; tolo, idiota.

Será que em algum momento de nossas vidas não deixamos de ver com clareza o que há por detrás de certos comportamentos alheios? Não fomos grandes mentecaptos como Geraldo Viramundo? Não caminhamos com a mesma insistência do personagem sem ao menos saber qual rumo estávamos seguindo, ou para qual destino estávamos sendo conduzidos? Será que existe uma definição para loucura, e se existe, será que podemos chamá-lo assim?

Mesmo vagando alheio as grandes incertezas da vida, e em meio a todas as angústias presentes no Estado de Minas Gerais, em alguns momentos de sua jornada, este percebe e toma consciência de sua própria "loucura". Geraldo Viramundo era um grande amante da literatura, e conhecedor de um vernáculo admirável e também questionável, contentava-se com o pouco que possuía e para ele bastava a simplicidade da vida. 

O Grande Mentecapto nos apresenta sentimentos de empatia, de compreensão, trás no gosto da própria leitura uma sensação de humor e divertimento, embora haja uma expressão trágica em cada terrível e infeliz acontecimento de Geraldo Viramundo, principalmente quando este encontra o seu grande "destino".