A Hora da Estrela | Clarice Lispector

16 março 2019

Existem livros que nos tiram de órbita e nos levam a uma galáxia totalmente desconhecida, quando voltamos a colocar os pés novamente no chão, sentimos a realidade ao redor ressurgindo fortemente em nós, e as incontáveis reflexões vindas de tantas palavras e entrelinhas, a nos sufocar a mente. A Hora da Estrela causa essa sensação estranha de pertencer e não pertencer, de pensar e não pensar, de sentir e não sentir. Clarice Lispector surpreende com toda a sua escrita, conduz cada um dos seus leitores a um caminho repleto de reconhecimento, semelhança, negação, e tantas outras características tão intrínsecas ao seu jeito cativante de compor imaginação e nos ensinar o sincero amor pela leitura, embora a Hora da Estrela seja uma obra diferente do que a autora estava costumava a apresentar aos seus leitores.

Sinceramente, eu o havia pegado emprestado na biblioteca do bairro em uma época em que o meu sentimento de admiração pelos livros ainda estava começando a se tornar real. E teria sido a primeira obra de Clarice Lispector lida por mim na vida se não fosse o meu adiamento e procrastinação em devorar as suas páginas. Aconteceram algumas vezes antes de eu pegar emprestado uma boa dose de coragem para finalmente começar e terminar a sua leitura, que aconteceu apenas agora. Antes tarde do que nunca, certo?

FICHA TÉCNICA
Título: A Hora da Estrela
Autora: Clarice Lispector
Ano: 1977
Páginas: 84
Idioma: Português
Editora: Rocco

Talvez a Hora da Estrela não tivesse me tocado tão de repente no mais profundo espaço dentro do peito se eu tivesse concluído em outro momento a sua história ou tentado mergulhar de cabeça nas palavras tão soltas de sua narrativa. Todo o desenvolver da obra é narrado por alguém que se identifica como Rodrigo S. M, e dedica as suas páginas a tentativa de contar a vida de uma nordestina que esbarrou no Rio de Janeiro, e desde então é perseguido pela necessidade incessante de contar-lhe a respeito de sua pacata e simples vida. 

Ao longo da narrativa, o Rodrigo S. M se perde em devaneios próprios a respeito do seu fazer artístico/literário, contando ao leitor os pequenos detalhes que compõem o processo de criação, embora faça o possível para continuar firme em seus versos sobre Macabéa. A possibilidade de não relatar a história da migrante o sufoca por dentro, tendo a necessidade urgente de externar os relatos da moça antes que os fatos o impossibilitem de continuar a narração. Embora o narrador diga que pareça haver um tom de simplicidade na história, afirma também que esta é escrita com grande dificuldade e contrariedade.

“Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventania soltas, pois eu também sou o escuro da noite”

Macabéa é uma jovem datilografa que vive sozinha, e segue sua existência de modo indiferente, sem expectativa de acreditar em um futuro para si por considerar tal possibilidade como um luxo, possuidora de uma estranha magreza não apenas física, na sua vida não cabia a esperança do mais, apenas a certeza aceitável do que é ralo, escasso, fraco. Ela era tão incapaz que mal podia perceber o quanto a sua vida ela infeliz, passava despercebida, invisível, sem cor. Seu vocabulário é escasso, é desconhecedora do mundo, seu único elo com este é um rádio que ouve.


“Quando rezava conseguia um oco de alma – e esse oco é o tudo que posso eu jamais ter. Mais do que isso, nada. Mas o vazio tem o valor e a semelhança do pleno. Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu – a meu mistério.”

A jovem apenas sobrevive, pois não tem a capacidade de viver, ou não sabe como.  Quantas pessoas sentem-se perdidas em sua própria vida sem ao menos saber que estão desaparecendo aos poucos. Macabéa desconhece a sua existência, desvaloriza o entusiasmo da vida por nunca ter se sentido realmente viva, apresenta uma ausência de saber a respeito de sua identidade e sua construção como ser humano. Enquanto Rodrigo S. M. aborda todas as questões existências de Macabéa, ao longo de sua narrativa percebo que ele se torna a própria consciência da jovem, sendo que ela se ausenta da certeza de sua vida. Um pouco filosófico reflexões como essa, mas o livro leva o leitor a se questionar quantos seres humanos compartilham essa mesma característica da personagem principal.

Quantas Macabéa existem por aí como seres desconhecidos e escapulidos da essência da vida?

O final da obra é a parte mais surpreendente da narrativa de Rodrigo S. M. sobre Macabéa. Não irei falar como se encerra essa história, ou como a protagonista chegou a sua hora da estrela. Coloco como ponto de interrogação e abro uma grande dúvida sobre o desfecho, mas garanto que ótimas reflexões serão necessárias, embora cada página seja de uma incômoda sensação de angústia, aflição e principalmente empatia com a personagem. Existem diversos aspectos que poderiam ter sidos comentados e apresentados nessa resenha, mas deixo a cargo de cada um a experiência literária acima. 

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