O Cortiço | Aluísio Azevedo

02 fevereiro 2019
Foto: interesses-sutis.blogspot.com
O Cortiço é um livro que todo mundo deveria ler pelo menos uma vez na vida, além de ser uma leitura obrigatória para alguns vestibulares, é uma obra fascinante por contextualizar as principais características de uma época, e por abordar em sua narrativa traços marcantes intrínsecos aos aspectos naturalistas a fim de compreender uma conjuntura diferente do que estamos habituados a reconhecer na sociedade. 

A obra se inicia com a tentativa de João Romão para acumular capital e conquistar a qualquer custo seus grandes objetivos, uma das características mais perceptíveis do personagem ao longo da narrativa é a sua ganancia exorbitante pelo dinheiro e sua busca frenética para enriquecer. Recebendo ajuda de sua amante, Bertoleza, ambos conseguem construir um cortiço que passa a abrigar diversas famílias, tralhando de domingo a domingo, sem descanso e privando-se em detrimento da grande ânsia pelo enriquecimento. Em contrapartida, Miranda, um comerciante na alta sociedade e bem estabelecido financeiramente, compra uma propriedade ao lado do cortiço, dando início a uma guerra entre ambos. João Romão o inveja silenciosamente, aspirando para si tudo o que o outro possuía, esperando que algum dia também pudesse usufruir dos mesmos bens, da mesma posição social, e ganhar prestigio semelhante. Quando Miranda é agraciado com o título de Barão, João Romão inveja-o ainda mais e com uma fúria avassaladora e uma urgência em ocupar uma posição na alta aristocracia, decide mudar seus hábitos e costumes até então defendidos e assume uma postura requintada, frequentando lugares pertencentes a burguesia, mudando suas vestimentas, pois para alcançar o grande reconhecimento que desejava também era necessário refinar-se. 

Já o cortiço, um ambiente confinado de pobreza, miséria, e uma luta diária em busca de sobrevivência diante de condições precárias de higiene e ausência de bons modos, expandia-se cada vez mais, engolindo famílias com uma ferocidade ameaçadora. Não havia esperança naqueles cubículos minúsculos, e à medida que os seus moradores eram conduzidos pela escória que ali habitada e pelo próprio esquecimento do restante da sociedade, viam-se invisíveis e mergulhados na fúria de agarrem-se a coletividade para se manterem vivos a rastejarem mais um pouco


“Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo.”

O cortiço fazia-se presente em cada pedaço de corpo que perambulava por suas habitações, forjava-se com tanta insistência em seus inquilinos que ambos pareciam uma unidade minúscula, um microcosmo ajuntado e esmagado, mas pertencentes ao mesmo tipo sanguíneo. As estalagens eram revestidas de uma tensa brutalidade, como se ali estivessem animais grosseiros a se despencar um contra o outro, a beliscar-se sempre que possível, havia um ar bárbaro e feroz, um tom de mal criação habitado nos próprios animais, desconfigurados das características de gente para serem tratados como bichos soltos a procura de selvageria. 

É perceptível ao longo da narrativa a singela maneira como o autor propicia declaradamente em diversos trechos a comparação da humanidade ali encanecida com a animalidade que parecia ser produzida entre os moradores, escapando descontroladamente a bestial maneira de vê-los. O cortiço ganha vida própria, abre-se suas inúmeras janelas como se pudesse ouvir deste um gritante bom dia após o crepitar de mais um dia convivendo com as primitivas desordens que ali sondavam.

“E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.”

Aluízio Azevedo traz em seu romance uma carga imparável de naturalismo, movimento artístico e literário que trouxe suas primeiras raízes para a obra O Cortiço, conduzindo uma narrativa idêntica e semelhantes aos fatos como verdadeiramente são vistos, abordando contextos que nunca antes haviam sido discutidos com tanta vivência como foi proposto. Aluízio Azevedo apresenta todas as faces da realidade, sem precisar ocultar nenhuma outra. A existência como realmente é, sendo conduzida por um caminho efetivo e prático. 

O cortiço é apresentado a nós como se fossemos pequenos observadores de fenômenos sociais e desdobramentos postulados como hereditários. As suas estalagens velhas e ranzinzas descompõem a figura do sujeito até descompô-lo por completo, obriga-o a vesti-lhe as suas mesmas vestes e apoderar-se firmemente de sua dominância, seus cômodos abarrotados e a sujeira ali estagnada adentram o pouco de decência daqueles seres humanos, agarrando-os sem permitir que consigam colocar os pés para fora, e mesmo que possam, é impossível retirar os vestígios existentes dentro dos moradores. O cortiço se agarra as entranhas com a promessa de nunca mais soltá-las, e consome qualquer espécie de esperança que haja em seus habitantes. 

Influenciado por ideais deterministas, acreditava-se firmemente em um conceito chamado de hereditariedade, afirmações que diziam que o ambiente em que vivemos e o meio social ao qual estamos inseridos são capazes de determinar o comportamento do sujeito, e predizer o seu destino. Na narrativa, observamos a impossibilidade de ruptura, impossibilidade de encontrar qualquer brecha, impossibilidade de quebrar as barreiras que ali foram postas e que rastejam com tanta insistência nos seres que habitam o cortiço. 

“Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o instinto, o faro sutil e desconfiado de toda fêmea pelas outras, quando sente seu ninho exposto”.

Vemos a sociedade escancarada e formada dentro das estalagens como pequenos objetos de experiências espalhados em linha reta, formando uma fila de pequenos vestígios, somos conduzidos a analisar as podridões expostos de uma maneira científica, onde o homem perde-se de seu próprio destino para viver inevitavelmente no conjunto de seus instintos e lástimas. 

O ser humano é a resposta de um conjunto de fatores. Aspectos sociais, culturais e tudo o que é vivenciado ao seu redor o moldam, porém não o determinam. Somos frutos do meio, influenciados pela família, círculos de amizade e convivências, porém ainda assim, temos o livre-arbítrio para escolher como tais influências nos conduzirão ao longo da vida, se as escolheremos para ditar a estrada a qual seguir ou se olhamos para outra que melhor nos cabe. Hoje, não estamos mais sentenciados ao destino sem lutar, ainda encontramos as mesmas limitações, deficiências e amedrontamentos, também podemos traçar um caminho diferente se verdadeiramente tentarmos, porque sabemos que isso é possível. Naquela época não, presos em grades que não conseguiam sair, afugentavam-se nelas, até que o primeiro pássaro foge da gaiola, e voa. 

O cortiço é uma obra prima que deveria ser lida por todos, uma leitura para ser analisada com um outro olhar e uma mente aberto a vivências que nos aproximam de uma humanidade tão dificilmente discutida hoje, que deveria ser mastigada com um bom gosto de crítica e reflexão.

2 comentários:

  1. Coloquei como meta esse ano ler mais clássicos e com essa resenha fiquei bem empolgada, amei. Parabéns, já irei ler este!

    https://www.submersaempalavras.com/

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    1. Olá Monyque, fico feliz em saber que gostou da resenha e que ela despertou a sua curiosidade para conhecer a história. E que meta maravilhosa essa, desejo uma ótima leitura nesse mundo tão fascinante dos clássicos. Beijos.

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