Eu quero cuidar de você

16 fevereiro 2019

Conheço bem a frase que diz que ninguém é de ferro, que em algum momento ou outro, iremos tropeçar em nossos próprios passos, mas não porque sejamos fracos, mas porque todos nós precisamos de um tempo, e nem que esse pequeno intervalo seja entre uma queda e outra,  e independentemente do quão cansado você esteja, eu vou cuidar das tuas feridas e dos teus machucados até cada um deles estiverem cicatrizados. 

Sei que talvez você desabe em lágrimas, e talvez eu já saiba que você irá fazer mais do que o impossível para disfarçá-las, mas não adianta esconder os sentimentos no peito ou trancafia-los a sete chaves, porque eu conheço cada gesto, por mais simples que seja, conheço as tuas simbologias, as tuas impressões, as tuas recaídas, e eu sou capaz de mergulhar em cada faísca miníma de sentimento que ameaçar vir a tona.

Mas eu não me importo para os teus humores repentinos e os teus momentos de pura raiva, porque eu já senti a tua essência só de encarar os teus olhos castanhos e toda a profundidade deles, quando eu me faço presente nos teus silêncios e adentro nas curvas do teu peito mesmo sabendo dos riscos, mesmo sabendo com toda a certeza do universo que não desejarei sair dos teus braços, porque é lá que deixo claro a minha ânsia de cuidar do que é meu: você. 

Quero esvaziar a tua mente das preocupações inevitáveis, tentar te fazer esquecer dos erros que tu não conseguiu evitar, esvaziar o teu peito do mundo lá fora, das consequências de escolhas não feitas, de falhas que ficaram no histórico, de longas conversas que não levaram a estrada alguma, de desistências que ficaram mais no presente do que no passado, quero ir destravando os teus medos e inseguranças até não sobrar absolutamente para se apoiar além de mim. 

Vou insistir até o fim para preencher qualquer vazio que tenha ficado em todas as vezes em que eu precisei ir embora porque já estava tarde e tu precisava terminar a pilha de tarefas do trampo, mas não importa qual tenha sido a saudade da vez, eu sempre irei voltar para te fazer sentir mais de mim, cada vez mais fundo, porque eu só penso em cuidar de você e de nós. 

Hoje ela sente saudade, já amanhã ninguém sabe

10 fevereiro 2019

Agora ela tá sentido que cada batida do coração é um grito de saudade silencioso que parece afogar o peito em saudade, de vez em quando aquelas lágrimas surgem de repente só para avisar que ainda existe um vazio inteiro dentro de si, mas apenas por enquanto, porque amanhã talvez a saudade vá rastejando para fora do peito em descompasso, talvez no dia seguinte ainda haja aquela pequena dor revirando os cantos que outro alguém ocupava, mas um dia as lembranças que a deixam tão embaraçada, que lhe arrancam o sentido tantas vezes no mesmo dia, vai ser apenas uma poeira, uma recordação distante que já não insiste em ficar, porque já foi, e passou. 

O vazio que ficou ela mesma vai preenchendo, parece que tem o dom de encontrar felicidade dentro de si, por mais que haja vezes em que esquece de toda a força que carrega consigo, basta um pequeno empurrãozinho para encontrar o que é essencial em meio a toda bagunça que luta para arrumar. Alguns dias é mais difícil que outros, quando o céu é carregado de cinza, dentro dela é sol, e às vezes quando o domingo de manhã é ensolarado, seu peito é uma grande ventania sem fim. Não é apenas a vida que é imprevisível, ela também é, mas só porque ainda está aprendendo a se manter firme diante de todo o desequilíbrio que insiste em tirá-la do eixo, como aquele fim que a sufoca todos os dias. 

Ah, sobre aquele fim, se o mundo soubesse quanto doí. Ela teve que ter coragem o suficiente para ir embora quando percebeu que ficar já não bastava, quando dois caminhos não se cruzam, não adianta tentar mudar a estrada do outro, é necessário aceitar a sua, e ela aceitou, precisou antes disso entender que não daria certo, e que tudo bem dar errado de vez em quando, que é impossível acertar de primeira, mas a sua grande decepção é ter acredito que havia encontrado a pessoa certa, puta que pariu, parecia que ia dar certo, no começo era perfeito, mas depois o amor não era mais capaz de unir dois corpos que na ânsia de ficarem, tiveram que partir. 

E todos os dias ela repete a si mesma que está tudo bem ter quebrado o seu coração uma vez, mas também diz com toda a certeza do universo que aos poucos a vida vai curando as feridas que ficaram, vai desfazendo as pontas soltas, os maus entendidos, transformando o saldo de culpa em amor-próprio, mas por enquanto está tudo bem sentir a saudade esburacando o peito e enchendo os olhos de lágrimas, porque um dia isso vai passar, e quando olhar para trás, ela vai perceber que depois desse fim, vai se reerguer mais forte que antes e agradecer a ele pela mulher que se tornou, porque tudo nessa vida é aprendizado, e cada aprendizado é uma oportunidade para ela ser melhor.

Hoje ela vai acordar com saudade, vai sentir falta, vai se desmoronar algumas vezes, e talvez até chore escondida antes de dormir, talvez culpe o dia nublado pelo mal humor, o dia ensolarado pela enxurrada de lembranças, se pergunte como fazer essa angústia acabar por completo, vai resistir a vontade de mandar uma mensagem, de stalkear nas redes sociais, vai imaginar que o outro está vivendo uma nova história, mas um dia, quem sabe em uma quarta-feira, em um fim de semana, em uma viagem, em companhia de alguém especial, ela vai ter seguido em frente sem ao menos se dar conta disso, as lembranças serão apenas velhas recordações que não terão mais o poder de antes, terá esquecido que um dia sofreu com tanta intensidade por alguém que não irá fazer parte do futuro e nem do presente, apenas do passado. 

Um dia ela vai se deparar com outros sorrisos, novos olhares, até mais bonitos que o dele, e aí finalmente vai ter a certeza de que todas as feridas foram curadas, que a partir daí estará tudo bem, porque não existirá mais saudade, e caso ela se esbarre com ele de novo sem querer querendo - porque o mundo às vezes se torna pequeno - vai se lembrar de alguém que nunca a amou o suficiente para fazê-la ficar e que em matéria de desinteresse, aprendeu a ser feliz com alguém que realmente queira sentir algo, e não apenas fingir.

Eu escolhi desistir de nós

06 fevereiro 2019

Fico me perguntando o que teria acontecido se a gente tivesse continuado juntos. Eu sei que fizemos vários planos, desde a nossa próxima viagem até como seria o nosso casamento, quais seriam os nomes do nossos filhos e até discutimos se teríamos um gato ou um cachorro. Fizemos algumas promessas que não serão cumpridas, desenhamos um futuro que agora já não existe mais, porque cada um precisou seguir em frente sozinho, deixando uma história inacabada, algumas páginas incompletas que agora não dá mais para voltar atrás e tentar preenchê-las. 

Mas eu tenho um defeito: odeio deixar as coisas pela metade, e saber que deixamos uma parte do que construímos em algum ponto do passado me sufoca, porque eu sempre me vejo perguntando a mim mesma o que teria acontecido se tudo tivesse sido diferente, se aquela briga nunca tivesse existido, e se tivéssemos tentando apagar as pontas soltas que ficaram entre nós. Ninguém me avisou sobre as decepções, sobre a dor que fica e não vai embora, ninguém me contou sobre as partidas repentinas e  muito menos sobre o aperto que não dá para evitar, mas se alguém tivesse me contado sobre o inesperado que a vida reserva, eu também não teria acreditado, porque parecia que ia dar certo, mas só pareceu mesmo. 

A gente não vai mais conhecer todas as praias que listamos ou fazer aquelas viagens de fim de ano que sonhávamos, não iremos comemorar os próximos natais e nem assistir a queima de fogos juntos da varanda do meu prédio. Não vamos mais precisar discutir o futuro, nem escolher qual será o sabor da pizza em uma noite de sábado enquanto assistimos Netflix, não vamos mais escolher na sorte a qual lugar iremos no próximo fim de semana, porque a gente sempre terminava em discussão, lembra? Sabe toda aquela ideia de traçar juntos as metas e objetivos? Então, pode ir esquecendo; aquele papo todo sobre construir uma família, sobre comprar uma casa próximo da praia, juntar dinheiro para irmos a Portugal, pode deixar pra lá também.

Talvez você deva estar se perguntando o que acontece quando uma história de amor chega ao fim, quando chega um momento em que não haverá nenhum capítulo a mais para acalmar o coração e nem preencher as lacunas que ficaram. Não é porque precisou acabar que eu vou arrancar tudo de você que ainda existe aqui dentro, não dá. Levo um pouco de você no meu jeito leve de ver a vida, levo as suas manias no peito, seu orgulho irreparável que me fazia te amar cada vez mais, na playlist do celular tem até alguns rock's que aprendi a ouvir graças a você, embora eu jamais tenha abandonado meu gosto pelo sertanejo, que no começo você tanto odiava, mas acabou se acostumando.

Mudei cada pedaço da nossa história, e de algum jeito, o que tivemos também me mudou. Todas os planos que criamos, os rascunhos que fizemos, as nossas brigas, os gritos que ninguém esperava, as risadas que duravam horas, a raiva de segundos, os beijos repentinos, os almoços de domingo, a sua comida que eu tanto amava, as declarações que vinham com tanta naturalidade... Não dá simplesmente para apertar um interruptor e excluir todos os meses que passamos tentando decifrar e conhecer um ao outro, porque cada construção mal feita ou concluída, cada tombo do seu lado, tudo isso me transformou, e eu não posso arrancar você de mim. 

O Cortiço | Aluísio Azevedo

02 fevereiro 2019
Foto: interesses-sutis.blogspot.com
O Cortiço é um livro que todo mundo deveria ler pelo menos uma vez na vida, além de ser uma leitura obrigatória para alguns vestibulares, é uma obra fascinante por contextualizar as principais características de uma época, e por abordar em sua narrativa traços marcantes intrínsecos aos aspectos naturalistas a fim de compreender uma conjuntura diferente do que estamos habituados a reconhecer na sociedade. 

A obra se inicia com a tentativa de João Romão para acumular capital e conquistar a qualquer custo seus grandes objetivos, uma das características mais perceptíveis do personagem ao longo da narrativa é a sua ganancia exorbitante pelo dinheiro e sua busca frenética para enriquecer. Recebendo ajuda de sua amante, Bertoleza, ambos conseguem construir um cortiço que passa a abrigar diversas famílias, tralhando de domingo a domingo, sem descanso e privando-se em detrimento da grande ânsia pelo enriquecimento. Em contrapartida, Miranda, um comerciante na alta sociedade e bem estabelecido financeiramente, compra uma propriedade ao lado do cortiço, dando início a uma guerra entre ambos. João Romão o inveja silenciosamente, aspirando para si tudo o que o outro possuía, esperando que algum dia também pudesse usufruir dos mesmos bens, da mesma posição social, e ganhar prestigio semelhante. Quando Miranda é agraciado com o título de Barão, João Romão inveja-o ainda mais e com uma fúria avassaladora e uma urgência em ocupar uma posição na alta aristocracia, decide mudar seus hábitos e costumes até então defendidos e assume uma postura requintada, frequentando lugares pertencentes a burguesia, mudando suas vestimentas, pois para alcançar o grande reconhecimento que desejava também era necessário refinar-se. 

Já o cortiço, um ambiente confinado de pobreza, miséria, e uma luta diária em busca de sobrevivência diante de condições precárias de higiene e ausência de bons modos, expandia-se cada vez mais, engolindo famílias com uma ferocidade ameaçadora. Não havia esperança naqueles cubículos minúsculos, e à medida que os seus moradores eram conduzidos pela escória que ali habitada e pelo próprio esquecimento do restante da sociedade, viam-se invisíveis e mergulhados na fúria de agarrem-se a coletividade para se manterem vivos a rastejarem mais um pouco


“Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo.”

O cortiço fazia-se presente em cada pedaço de corpo que perambulava por suas habitações, forjava-se com tanta insistência em seus inquilinos que ambos pareciam uma unidade minúscula, um microcosmo ajuntado e esmagado, mas pertencentes ao mesmo tipo sanguíneo. As estalagens eram revestidas de uma tensa brutalidade, como se ali estivessem animais grosseiros a se despencar um contra o outro, a beliscar-se sempre que possível, havia um ar bárbaro e feroz, um tom de mal criação habitado nos próprios animais, desconfigurados das características de gente para serem tratados como bichos soltos a procura de selvageria. 

É perceptível ao longo da narrativa a singela maneira como o autor propicia declaradamente em diversos trechos a comparação da humanidade ali encanecida com a animalidade que parecia ser produzida entre os moradores, escapando descontroladamente a bestial maneira de vê-los. O cortiço ganha vida própria, abre-se suas inúmeras janelas como se pudesse ouvir deste um gritante bom dia após o crepitar de mais um dia convivendo com as primitivas desordens que ali sondavam.

“E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.”

Aluízio Azevedo traz em seu romance uma carga imparável de naturalismo, movimento artístico e literário que trouxe suas primeiras raízes para a obra O Cortiço, conduzindo uma narrativa idêntica e semelhantes aos fatos como verdadeiramente são vistos, abordando contextos que nunca antes haviam sido discutidos com tanta vivência como foi proposto. Aluízio Azevedo apresenta todas as faces da realidade, sem precisar ocultar nenhuma outra. A existência como realmente é, sendo conduzida por um caminho efetivo e prático. 

O cortiço é apresentado a nós como se fossemos pequenos observadores de fenômenos sociais e desdobramentos postulados como hereditários. As suas estalagens velhas e ranzinzas descompõem a figura do sujeito até descompô-lo por completo, obriga-o a vesti-lhe as suas mesmas vestes e apoderar-se firmemente de sua dominância, seus cômodos abarrotados e a sujeira ali estagnada adentram o pouco de decência daqueles seres humanos, agarrando-os sem permitir que consigam colocar os pés para fora, e mesmo que possam, é impossível retirar os vestígios existentes dentro dos moradores. O cortiço se agarra as entranhas com a promessa de nunca mais soltá-las, e consome qualquer espécie de esperança que haja em seus habitantes. 

Influenciado por ideais deterministas, acreditava-se firmemente em um conceito chamado de hereditariedade, afirmações que diziam que o ambiente em que vivemos e o meio social ao qual estamos inseridos são capazes de determinar o comportamento do sujeito, e predizer o seu destino. Na narrativa, observamos a impossibilidade de ruptura, impossibilidade de encontrar qualquer brecha, impossibilidade de quebrar as barreiras que ali foram postas e que rastejam com tanta insistência nos seres que habitam o cortiço. 

“Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o instinto, o faro sutil e desconfiado de toda fêmea pelas outras, quando sente seu ninho exposto”.

Vemos a sociedade escancarada e formada dentro das estalagens como pequenos objetos de experiências espalhados em linha reta, formando uma fila de pequenos vestígios, somos conduzidos a analisar as podridões expostos de uma maneira científica, onde o homem perde-se de seu próprio destino para viver inevitavelmente no conjunto de seus instintos e lástimas. 

O ser humano é a resposta de um conjunto de fatores. Aspectos sociais, culturais e tudo o que é vivenciado ao seu redor o moldam, porém não o determinam. Somos frutos do meio, influenciados pela família, círculos de amizade e convivências, porém ainda assim, temos o livre-arbítrio para escolher como tais influências nos conduzirão ao longo da vida, se as escolheremos para ditar a estrada a qual seguir ou se olhamos para outra que melhor nos cabe. Hoje, não estamos mais sentenciados ao destino sem lutar, ainda encontramos as mesmas limitações, deficiências e amedrontamentos, também podemos traçar um caminho diferente se verdadeiramente tentarmos, porque sabemos que isso é possível. Naquela época não, presos em grades que não conseguiam sair, afugentavam-se nelas, até que o primeiro pássaro foge da gaiola, e voa. 

O cortiço é uma obra prima que deveria ser lida por todos, uma leitura para ser analisada com um outro olhar e uma mente aberto a vivências que nos aproximam de uma humanidade tão dificilmente discutida hoje, que deveria ser mastigada com um bom gosto de crítica e reflexão.