Quando a faísca da vida se apaga

09 janeiro 2019

Não sei se foi a vida que mudou ou se em um estalar de dedos fui eu que acabei mudando. Talvez tenha sido uma daquelas tempestades que me arrastaram para longe, ou talvez aquele chuvisco fraco de verão que em gota em gota me desfez. Tão rapidamente eu perdi as faíscas que me mantinham acessa, hoje sou o restante de um fogo apagado, destruído pelas ventanias repentinas que me sacudiram o restante de cinza. 

Eu era uma chama que tremeluzia ao estalar de qualquer chamado. A vida gritada o meu nome nas noites silenciosas de verão, me fazendo acompanhar o seu ritmo frenético em meio a sua desordem, alucinada pelo desesperar de suas cantigas silenciosas que me aturdiam as madrugadas. Eu era o jeito que a vida encontrou de sorrir, até o lento instante em que a faísca que me prendia ao gosto intenso da beleza de existir se apagou. 

Essa faísca brilhosa que me acendia a vida, que me fazia ser a lareira em chama na busca de mais combustível para continuar crepitando entre o inverno e outro, que me fazia dançar calorosamente e me desenrolar em uma combustão desastrosa que me consumia por inteiro, já não me acende o gosto pela vida, aqui é vazio, oco, ausente de esperança e morto. 

Sou cinzas, agora. Me desmancho em mim mesma, deixando a paixão adormecida, o fulgor que antes me conduzia a minha inspiração e entusiasmo gritante agora é só um rito de passagem silencioso e inexistente, invisível com suas pegadas sobre a areia que a mará do mar insiste em apagar. A vida me desencontrou em algum momento, e continua se esquivando de mim enquanto a minha procura cessou. 

Já não tenho faíscas para brilhar ou sentir o gosto da vida me chamando. Inexisto na prisão da existência desse tempo que jazz morto em mim. Sou cinzas, apenas.

4 comentários:

  1. é engraçado, que sempre chegamos nesses momentos em nós mesmo de conflitos, em que nos perguntamos o que somos, se já fomos alguma coisa (para alguém ou para nós mesmos). acho que nesses momentos é justamente quando começos a renascer, como a fênix, das cinzas.

    beijo beijo
    igormedeiroz.blogspot.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Igor, que maravilhoso te ver por aqui, pois é, quando achamos que não podemos ser mais nada, nem pertencer a lugar algum, renascemos das cinzas que ficam, do resto que sobra, e novamente nos fazemos grande para enfrentar todos os conflitos que aqui ficam <3 beijos, volte sempre

      Excluir
  2. Que texto intenso! Nem sempre é fácil recomeçar, mas recomeços são essenciais quando essa chama pela vida se apaga.. estamos aqui por um motivo, nada é por acaso. Por isso, precisamos seguir!

    www.kailagarcia.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Exatamente Kaila, a vida é um grande ciclo que se inicia a cada manhã, onde nos reinventamos e fazemos ressurgir de dentro de nós a esperança e fé necessária para estarmos aqui, e continuarmos seguindo em frente. Beijos, volte sempre <3

      Excluir