o resto

05 janeiro 2019



o resto

Tenho chorado rotineiramente por todos os cantos onde me arrasto,
as lágrimas são uma constelação tão conhecida que as decorei no pensamento,
enquanto me devoram por inteiro eu me refaço em pedaços vazios.
Não há música que consiga replicar o som lastimável que os meus pés
fazem quando me conduzo em um ritmo sonolento e descalço.

As cores se desfazem uma a uma,
mas vejo a escória amargurada me tocar a alma em uma espécie
de grito entalado que perturba meu silêncio.
Resta um barulho que denuncia o choro fanhoso que não
desgruda de minhas entranhas incineradas.

Uma lágrima resta quando
todo o restante queimou em brasas.

Alguém enxerga a escuridão devorando meus olhos castanhos 
e me conduzindo lentamente em direção aos meus delírios frenéticos, 
descompassados,
traiçoeiros,
viciosos
e doentes.

Tenho olhos de quem vê a morte sorrateiramente aqui.
Resta um punhado de dor mantendo-me viva,
respirando entre confusões e distorções que já não me esforço para distinguir.
Repasso minhas tardes como alguém que espera dias melhores,
mas que vê apenas a escuridão resguardando essa espera e tornando
cinzento e ranzinza meu entardecer.

Tudo é ausência de cor.
A música já não me acompanha.
Assim como minhas palavras, que já não conseguem trazer o alivio 
para a agonia que transpira de minhas têmporas 
e de toda alma.

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