eu sou o monstro | poema

23 janeiro 2019


Busco a cura para feridas que não cicatrizam,
mas também sou o veneno para os dias sóbrios.
Me desnudo da falsa esperança que me mantém
quase com vida, enquanto mais da metade de mim cai em luto.

Me pergunto se pertenço ao engano,
aquela destinada a contar mentiras que devoram a carne 
e agonizam a expressão de calma que me detenho a agarrar, 
ou se continuo real, e essa realidade é a mesma destruidora 
e dolorosa a que me permito fugir.

Busco o remédio para ressurgir novamente,
retornar as cinzas lançadas ao mar outra vez ao seu esconderijo, 
mas também sou a doença que consome a sanidade,
luz brilhosa,
o afago generoso,
os dias melhores.

Sou a praga que toca o estrago em cada esquina
e beijos adocicados, que se trocam por amargos que não controlo.
No mesmo frasco, me cabo o monstro que dizem que sou, 
enquanto tudo o que preciso para adormecê-lo continua no
mesmo pote.

Mas não sei a dose exata para acalmar a fera besta que sou,
não me importaria de matá-lo com um golpe seco e frágil,
nem se ao menos pudesse
fazê-lo não existir diante do meu temor.

Sou a cura, mas ao mesmo tempo sou o veneno, 
aquela que mata e devora a si própria em desalento,
e salva a si em façanhas inusitadas, 
que ninguém consegue finalmente ver, 
porque todos os olhares acanhados 
e temerosos continuam fixos
sobre o monstro.

2 comentários:

  1. Acho que todos nós temos um pouquinho desse monstro dentro de nós, né? Tô apaixonada sua escrita!

    www.kailagarcia.com

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    1. Muito obrigado Kaila, fico imensamente feliz pelo seu comentário. A escrita me escolheu para conduzir as palavras, sinto que elas fazem parte de mim <3

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