eu sou o monstro | poema

23 janeiro 2019


Busco a cura para feridas que não cicatrizam,
mas também sou o veneno para os dias sóbrios.
Me desnudo da falsa esperança que me mantém
quase com vida, enquanto mais da metade de mim cai em luto.

Me pergunto se pertenço ao engano,
aquela destinada a contar mentiras que devoram a carne 
e agonizam a expressão de calma que me detenho a agarrar, 
ou se continuo real, e essa realidade é a mesma destruidora 
e dolorosa a que me permito fugir.

Busco o remédio para ressurgir novamente,
retornar as cinzas lançadas ao mar outra vez ao seu esconderijo, 
mas também sou a doença que consome a sanidade,
luz brilhosa,
o afago generoso,
os dias melhores.

Sou a praga que toca o estrago em cada esquina
e beijos adocicados, que se trocam por amargos que não controlo.
No mesmo frasco, me cabo o monstro que dizem que sou, 
enquanto tudo o que preciso para adormecê-lo continua no
mesmo pote.

Mas não sei a dose exata para acalmar a fera besta que sou,
não me importaria de matá-lo com um golpe seco e frágil,
nem se ao menos pudesse
fazê-lo não existir diante do meu temor.

Sou a cura, mas ao mesmo tempo sou o veneno, 
aquela que mata e devora a si própria em desalento,
e salva a si em façanhas inusitadas, 
que ninguém consegue finalmente ver, 
porque todos os olhares acanhados 
e temerosos continuam fixos
sobre o monstro.

Diálogo #4 Eu ainda penso em nós

16 janeiro 2019

- Ontem fez exatamente um ano que terminamos - eu disse.
- Achei que você já tivesse superado. 
- Mas eu superei - menti.
- Então porque falou isso depois de tanto tempo? 
- Ah, sei lá. Algumas vezes é impossível esquecer uma história como a que eu e ele tivemos. 
- Ele não te ligou mais? 
- Ligou. 
- E você não atendeu?
- Claro que não - disse.
- Qual o problema de atender? Talvez ele tenha alguma coisa para falar. 
- Não sei se gostaria de ouvir. 
- Você tem medo? 
- Medo? 
- É, de se arrepender de alguma escolha que tenha feito no passado. 
- Dar um tempo era a única escolha que eu tinha. 
- Tem certeza? 
- Às vezes eu acho que foi melhor assim, sabe. Não estava dando certo. 
- E se você tentasse de novo, só que agora. 
- Agora? - eu ri. - Até parece que ele iria querer. 
- E você? Não? 
- Sinceramente, não sei. Mudei meus objetivos, mudei tantas coisas...
- Menos ele da sua cabeça, não é? 
- Quer saber a verdade? Ainda penso nele, às vezes, quando não tenho nada para fazer.
- Fala isso pra ele, então. 
- Quando ele ligar?
- Pode ser. 
- Acho que não tenho coragem. 
- Que tal tentar da próxima vez? 
- E eu falo o quê? 
- Tudo o que você sente. Ainda sente. 
- Nem sei mais o que sinto. Não quero me decepcionar de novo. 
- Você nunca vai saber se não tentar. 
- Mesmo correndo o risco de levar um não?
- Se fosse pra isso acontecer, ele não teria seu número salvo. 
- É, mas...
- Não fica colocando barreiras ou inventando desculpas. 
- Estou adiando o que eu quero fazer. 
- Não precisa disso, porque você ainda pensa nele. 
  Eu sorrio. 
- É, talvez eu ainda pense. 

Olha o que eu te escrevi, rapaz

12 janeiro 2019

E aí? Já faz tanto tempo, né? Talvez você tenha se esquecido de mim. Espero que tenha conseguido seguir em frente da mesma maneira que eu consegui, e acredita que nem foi tão difícil assim viver a minha vida sem você, porque não ter você do meu lado parecia o certo, parecia que era correto abrir de tudo o que eu sentir pra ser feliz, afinal, era a minha felicidade e o meu futuro em jogo. 

Eu perdi as esperanças em encontrar um novo amor depois que a nossa história não deu certo. Depois que eu percebi que você só iria somar na lista de escolhas erradas que fiz, eu desisti de procurar o cara certo, porque depois de tanta gente errada entrar na minha vida e me bagunçar inteira, eu já não era capaz de quebrar a cara mais nenhuma vez. Já não aguentava me iludir tanta. 

Quando eu finalmente consegui te esquecer, desacreditei que o amor fosse pra mim. Parecia muito distante a ideia de poder entregar o meu coração novamente, por isso eu mudei tanto o jeito de pensar, mudei minhas atitudes e fiz o possível pra não me permitir sofrer tanto de novo. 

Eu culpei você durante muito tempo, sabe? Mas eu aprendi a não te culpar por você não saber amar, e apesar de tudo, eu tô torcendo pra você aprender, pra ter a sorte de encontrar alguém que seja capaz de mostrar que amor não é exigir mudanças, ou ter a liberdade de criticar quantas vezes quiser, e nem julgar os defeitos de alguém quando achar conveniente. Espero que você consiga entender o que é amor de verdade, porque eu finalmente pude senti-lo. 

Pois é, quando eu achei que fosse impossível amar de novo, alguém apareceu e mudou a minha vida. Aconteceu de repente. Não estava nos meus planos recomeçar a minha história ao lado de alguém, mas foi a melhor surpresa que a vida já fez, e eu me permiti sentir tudo com uma intensidade que fez o meu peito transbordar de paixão. 

Quando você encontra alguém que se encaixa perfeitamente em você, a gente passa a ter todos os motivos pra agradecer, porque não é todo mundo que tem essa sorte, e porra, eu tive. Encontrei alguém que faz o meu coração acelerar só de falar algumas palavrinhas, atitudes que fazem com que eu me apaixone mais e mais todos os dias, alguém que eu poderia ficar observando durante horas e horas, e mesmo assim, eu nunca me cansaria, porque é essa pessoa que faz o meu dia brilhar, e que a faz a minha semana nunca ser a mesma, porque eu amei de tal forma, que me tornei mais forte pra enfrentar qualquer problema ou obstáculo. 

Eu sei que você errou comigo, e que agora não dá pra concertar todos esses erros, mas você pode tentar fazer diferente com todas que entrarem na sua vida, dessa vez pode dar certo, talvez agora seja a sua hora de ser feliz e de mudar alguém pra melhor, que você encontre o amor que você nunca foi capaz de me oferecer. 

Quando a faísca da vida se apaga

09 janeiro 2019

Não sei se foi a vida que mudou ou se em um estalar de dedos fui eu que acabei mudando. Talvez tenha sido uma daquelas tempestades que me arrastaram para longe, ou talvez aquele chuvisco fraco de verão que em gota em gota me desfez. Tão rapidamente eu perdi as faíscas que me mantinham acessa, hoje sou o restante de um fogo apagado, destruído pelas ventanias repentinas que me sacudiram o restante de cinza. 

Eu era uma chama que tremeluzia ao estalar de qualquer chamado. A vida gritada o meu nome nas noites silenciosas de verão, me fazendo acompanhar o seu ritmo frenético em meio a sua desordem, alucinada pelo desesperar de suas cantigas silenciosas que me aturdiam as madrugadas. Eu era o jeito que a vida encontrou de sorrir, até o lento instante em que a faísca que me prendia ao gosto intenso da beleza de existir se apagou. 

Essa faísca brilhosa que me acendia a vida, que me fazia ser a lareira em chama na busca de mais combustível para continuar crepitando entre o inverno e outro, que me fazia dançar calorosamente e me desenrolar em uma combustão desastrosa que me consumia por inteiro, já não me acende o gosto pela vida, aqui é vazio, oco, ausente de esperança e morto. 

Sou cinzas, agora. Me desmancho em mim mesma, deixando a paixão adormecida, o fulgor que antes me conduzia a minha inspiração e entusiasmo gritante agora é só um rito de passagem silencioso e inexistente, invisível com suas pegadas sobre a areia que a mará do mar insiste em apagar. A vida me desencontrou em algum momento, e continua se esquivando de mim enquanto a minha procura cessou. 

Já não tenho faíscas para brilhar ou sentir o gosto da vida me chamando. Inexisto na prisão da existência desse tempo que jazz morto em mim. Sou cinzas, apenas.

o resto

05 janeiro 2019



o resto

Tenho chorado rotineiramente por todos os cantos onde me arrasto,
as lágrimas são uma constelação tão conhecida que as decorei no pensamento,
enquanto me devoram por inteiro eu me refaço em pedaços vazios.
Não há música que consiga replicar o som lastimável que os meus pés
fazem quando me conduzo em um ritmo sonolento e descalço.

As cores se desfazem uma a uma,
mas vejo a escória amargurada me tocar a alma em uma espécie
de grito entalado que perturba meu silêncio.
Resta um barulho que denuncia o choro fanhoso que não
desgruda de minhas entranhas incineradas.

Uma lágrima resta quando
todo o restante queimou em brasas.

Alguém enxerga a escuridão devorando meus olhos castanhos 
e me conduzindo lentamente em direção aos meus delírios frenéticos, 
descompassados,
traiçoeiros,
viciosos
e doentes.

Tenho olhos de quem vê a morte sorrateiramente aqui.
Resta um punhado de dor mantendo-me viva,
respirando entre confusões e distorções que já não me esforço para distinguir.
Repasso minhas tardes como alguém que espera dias melhores,
mas que vê apenas a escuridão resguardando essa espera e tornando
cinzento e ranzinza meu entardecer.

Tudo é ausência de cor.
A música já não me acompanha.
Assim como minhas palavras, que já não conseguem trazer o alivio 
para a agonia que transpira de minhas têmporas 
e de toda alma.

Mais coragem para sermos melhores que ontem

02 janeiro 2019

Passamos pela vida encerrando ciclos e desfazendo pegadas, colecionando sorrisos e esquecendo os tropeços dados pela metade do caminho. Fazemos escolhas e fingimos não ver os arrependimentos que ficam, lidamos com partidas inesperadas que pareciam que jamais aconteceriam, mas que acontecem. Guardamos memórias de pessoas queridas que foram embora, seja pela necessidade da vida ou porque decidiram que seria a melhor hora de partir. Silenciamos gritos porque temos medo da reação de quem possa escutá-los, apagamos vozes com receio do dizer. 

Escolhemos o anonimato porque o conhecido parece assustador. Escondemos os reflexos de quem realmente somos e das transformações inusitadas da vida porque enfrentamos a insegurança de não saber os nossos próprios efeitos, no mundo e em nós. Convivemos com a ansiedade por não sabermos o que o amanhã traz e o depois reserva, por não entendermos que a limitação nos permite chegar até o agora, e a partir daqui, seguir em frente. Enxergamos culpa onde deveríamos apenas agradecer pela mudança de rota da vida que nos permitiu chegar em um lugar melhor, onde cabemos perfeitamente bem. Percebemos tarde demais que a colheita feita por nós só é possível devido as mãos suadas que a plantaram, e que somos nós que decidimos se colhemos flores ou plantas com espinhos. 

Reclamamos com o universo sobre o que recebemos quando na verdade fomos os primeiros a mandar uma resposta negativa ao invés de procurar o positivo da vida, quando constantemente enviamos uma corrente de negatividade e somos recompensados com a mesma intensidade. Desejamos uma vida diferente, um saldo melhor na conta bancária, mais viagens a serem feitas no final de semana e saber o momento certo para mudar, porém continuamos no mesmo lugar, na sofisticada zona de conforto que alguns evitam sair, se prendendo as várias incertezas e fraquezas que carregamos conosco, se esquivando e fugindo, como se pudêssemos fazer isso a vida toda, e realmente podemos, mas que vida merece essa recusa?

Buscamos perfeições quando tudo de nós é o contrário. 
Seguimos caminhos diferentes, estradas só nossas, onde ninguém poderá caminhar por nós.

A vida não é o quebra-cabeça mais fácil do mundo, e não possui um manual de instrução para os momentos em que ameaçamos cair, e nem a receita mágica para transformarmos as nossas fraquezas em força e os nossos medos em coragem sem lutar, porque a disposição para melhorar é uma constância que não para, somos tão infinitos que nossa capacidade de ir além não encontra ponto final, apenas reticências, onde podemos continuar de onde paramos, refazer os passos em direção a uma nova caminhada, encontrar paz depois de passarmos ao inferno mais vezes do que podemos contar, enfrentar as nossas parcelas de culpa sabendo que podemos criar oportunidades no lugar dos erros sempre que a vida exigir, entender finalmente que para chegar onde queremos também precisamos percorrer toda a distância que nos separa de nós e dos sonhos. A continuidade da vida permite termos mais coragem para sair do conforto e encarar os obstáculos de frente, cabeça erguida e coração valente. 

É por isso que desejo mais coragem para sermos melhores que ontem, e fazer a diferença dentro de nós antes de cobrarmos o universo por tudo que ainda falta. Somos incompletos, mas não porque precisamos ter uma metade para nos completar, e sim porque a vida é uma descoberta diária, é uma vivência nova, e a renovação da esperança e determinação é o que nos faz buscar e encontrar novos sonhos e propósitos, porque somos incompletos para sempre caber um pouco mais da vida em nós mesmos.