Quando eu sumir do whatsapp.

19 maio 2019

Odeio essa sensação estranha que me ocorre toda vez que acordo e vejo uma mensagem pairando no topo da tela do celular, como uma espécie de aviso sobre as obrigações que a sociedade nos impõe: a necessidade de manter uma conexão em tempo integral com pessoas que não se preocupam nenhum pouco conosco, responder o maior número possível de mensagens em grau absurdo de aleatoriedade, realizar a leitura compreensiva da ininterrupta avalanche de mensagens que aparecem sempre que ligamos o wi-fi, a insistência de digitarmos uma resposta sempre que o outro deseja que o façamos. 

É essencial para a comunicação, ouço dizerem, mas qual tipo de comunicação, eu questiono, essa em que o trabalho não acontece somente no ambiente de uma grande corporação, mas o carregamos conosco dentro de um pequeno aparelho tecnológico no bolso, momento este em que uma mensagem nos acorda de um sono ainda nem existente para resolvermos algum bo urgente do outro lado da cidade, enquanto permanecemos com os olhos pregados em uma tela retangular por um tempo sem fim, trazendo todo o trabalho para casa. 

Em uma dessas manhãs, por exemplo, abri o aplicativo com certa implicância, aquele sentimento nostálgico de que deveria poupar minha solidão, ou solitude, daquelas, desculpe o termo usado, mensagens malditas de bom dia, os recados no formado de imagens felizes, animadas e repletas de uma satisfação que me pergunto ser possível às 6h da manhã, ou se existe uma necessidade constante de autoafirmação para mostrar que é privilegiado em meio a uma multidão de gente mal humorada.

Por uma questão de autopreservação, distanciamento proposital, e necessidade de defender o restante da minha privacidade, desativei aquele famoso “tick azul”, a tal confirmação de leitura, e aquela pressão psicológica advinda do “visto por último"; permaneço em alguns grupos pela simples preguiça de sair, e pela evitação de comentários e questionamentos pela saída, se não fosse isso, adeus, alguns são realmente necessário, admito, talvez do curso, e o meu próprio grupo solitário usado como blocos de nota e cabo ubs para o whatssapp web.

Me pergunto quanto tempo mais precisaremos gastar olhando uma tela insignificante, uma rede social altamente tóxica, para percebemos que uma máquina tecnológica, um aplicativo bilionário feito para almas empobrecidas, suga a conexão interna enquanto nos aproxima de um abismo, um vazio no meio da sociedade; às vezes sinto falta de mim, de estar comigo, sem que o outro também esteja presente, e quando digo outro, me refiro a essas pequenas criaturas insuportáveis que não conseguem entender o verdadeiro significado do vácuo, uma resposta não respondida é evidência o bastante para encerrar qualquer assunto, pelo simples direito que tenho de não precisar justificar absolutamente nenhuma das minhas escolhas. 

Gente mal intencionada que faz questão de interromper o isolamento alheio, aquele momento tão nosso em que se tem a pretensão de colocar a cabeça no lugar, olhar para dentro, fazer uma meditação no estilo zen-budismo, preparar um café na manhã sem a pressa de um dia cansativo, para tudo ser interrompido por uma mensagem capaz de sabotar a paz interior, e nos dar a sensação estranha de que tudo ainda tende a piorar, as relações tendem a morrer lentamente daqui para frente, conhecer alguém nunca te tornou tão fácil como nos dias atuais, e isso é mais trágico do que um alívio. 

Consigo contar no dedo os amigos que vale a pena ter no whatssapp, o restante, que me perdoe, um dia ainda excluo e nem foto minha mais irão ver. 
@lua_intensa

Esses malditos quilômetros que nos separam

10 maio 2019

às vezes você esquece que carrego uma parte do mundo dentro de mim, que sou tão inflamável quanto uma chama próximo de algum ambiente tóxico, que sou forte e ao mesmo tempo vulnerável. Algumas vezes eu também sou como você, tenho medo de sair lá fora e acompanhar o ritmo de um dia agitado, observar os ônibus lotados surgindo um atrás do outro em linha reta no lado esquerdo da avenida principal, você tem medo que chova porque um guarda-chuva pesa demais na mochila, respira com dificuldade quando imagina o fone de ouvido esquecido no quarto. 

tenho medo do desconhecido do mesmo jeito que um bando de pessoas estranhas te apavora, sinto o coração arrancado do peito fugindo pela boca, remoendo o peito em pequenos estilhaços que não controlo ou diminuo. sou apenas uma ótima atriz que finge bem, aquela que coloca uma máscara para ocultar o seu pequeno pânico desfigurado em poucos instantes. me escondo como você em um pequeno cubículo que mal cabe dois corpos como o nosso, porém pertenço a classe fingidora. 

somos tão parecidos, porém não acredita que sejamos o mesmo lado da moeda quando tudo o que você consegue enxergar são apenas as minhas contrariedades expostas, os traços que por natureza não me definem, mas que você insiste em atribuir a mim. somos tão próximos, mas esquecemos a nossa proximidade quando finge - tão bem quanto eu - que meu jeito é indiferente, que os desejos que compartilho sempre pertencerão apenas a mim, e nunca a você. 

os quilômetros são a tortura, porque os sinto até mesmo quando seguro a sua mão, ou quando me entrego a você em um abraço apertado que suga a minha alma. fingo que tudo bem ser assim, sem contar que a distância que existe ainda me destrói, me permito aceitar. o pior tipo de amor é aquele que aceita o tudo com medo de não ter nada. parei de culpar-me pelos quilômetros estreitos e sufocantes que me atacam o fígado, mas o que posso fazer eu, a não ser aceitar que tentar não adianta, que lutar não resolve, e mudar já não adia o fim. 

não o fim de verdade, mas aquele final que acontece quando ainda estamos juntos. queria poder ir além do que as palavras me permitem, mas tenho apenas estas para me aliviar a angústia que causa a distância em mim. não somos dois corpos juntos, somos duas almas separadas por alguns quilômetros de distância. me permita ir além algum dia, diga sim quando o amor estampar a beleza das cores e a certeza de que pertencemos um ao outro, sem que haja um caminho tão espaçado entre nós. 

sua amada.

Amar.

02 maio 2019

02 de maio, em algum lugar do atlântico norte, 2023. 

Escrevo-te mais uma vez, mas endereço esse compilado de frases e palavras a pequena e enigmática tristeza que há no ato de viver. 

Busco refúgio nas intermináveis linhas que formam este pedaço de papel, esperançosa de que todas as tuas linhas vazias preencham-se sem lamúria dos meus sentimentos indefiníveis que carrego como estacas dentro do peito. Desde ontem pego-me pensativa. 

E pensar, em seu sentido mais profundo, dói. 

Sei de modo totalmente consciente que amar exige certo nível de esforço, dedicação e empenho, permitir-se sentir com tamanha lucidez um encargo como esse não é uma tarefa que se construía de uma hora para outra, e não será na passagem de insuficientes dias que o coração deixará de amar quando não for o bastante continuar amando. 

Entendo perfeitamente que amar é, por diversas vezes, complicado. Se buscamos certezas irrefutáveis, e convicções irreparáveis, ou se nos trancamos em dogmas intransponíveis, não estamos ainda preparados para tal, porque amar é presumir a ciência da dúvida, da descrença, do ceticismo implícito. Nem tudo vai sair como queremos, talvez cheguemos perto, mas aquele pouco, por vezes, vai esgotar a paciência e nos arrancar na nossa tentativa. 

De todas as definições já formuladas a cerca do amar, a que nunca esqueci foram as palavras do psicanalista Lacan: amar é dar o que não se tem a alguém que não quer. Existe outra definição mais verdadeira que a certeza de que amar é acima de tudo oferecer o que nos falta para alguém que não possui o menor interesse de aceitar? 

Há quem tenha sorte, para estes, resta o eterno agradecimento ao universo, esses não precisarão se matar na exaustão de um sentimento não reciproco, nem chorar rios entre madrugadas silenciosas, nem despertar com a trilha de lágrimas sobre a face escurecendo as orelhas embaixo dos olhos tristonhos . Comigo, tenho somente a sorte da maquiagem corrigir os erros e acertos do coração. 

Para mim, restou-me sentar e esperar os ferimentos fecharem-se, os cortes cicatrizarem e o sangue parar de esmurrar a pele ferida, porém não há pedaço de carne que se regenere sem que a alma se desfaleça em dor também. A vida é o que sombra quando tudo em você é esmagado por tantos outros descasos. Não adiante enfurecer-se pela dureza da vida, querer a morte passional de si mesmo. Sofrer é a grande inevitabilidade da existência. 

Engulo o sofrimento como uma água podre, e meus órgãos enfurecem com tal afronta, mas nada posso fazer a não ser seguir em frente. Ah, sempre em frente. Quem formulou essa preposição não poderia jamais presumir a grande dor que existe. Amar é, afinal, quebrar-se e continuar. Talvez remendar os poucos casos ainda intactos com algum feitiço incomum. 

Amar é a grandiosidade da vida embutida em uma dose de longo sofrimento, enquanto por alguns até vale a pena sofrer, por outros, nem tanto. 

"Vejo-o em uma cama de hospital, internado pela mazela da vida, o coração traumatizado e quase insuficiente pelo Prolapso Mitral, me dizendo que houve tremores, fortes dores no peito, febre, uma injeção de dipirona, medicamento, sem visita, somente um acompanhante, e eu deixo para lá a aquela iminente conturbação dele, graças a sua indiferença. Não consegui evitar o salgado das águas extrapolando dos meus olhos, a insegurança me perfurando a continuidade da concentração, a efêmera sensação agonizante de pouca importância que foi dada a minha preocupação, e desligo-me de um sentimento que nunca foi exclusivamente meu." 

Esta carta não foi escrita com tinta, porém com os longos e intermináveis silêncios que formaram grande parte dessa história. 

Com amor,
sua Lua

Julieta Imortal | Stacey Lay

24 abril 2019

Uma das minhas últimas leituras foi o livro Julieta Imortal, da autora Stacey Jay. Terminei lendo suas 237 páginas em menos de uma semana, e logo em seguida já pensei em indicá-lo no blog e comentar minha experiência ao lê-lo, como sempre procuro fazer com as histórias que mais gosto, porém ler o romance de Romeu e Julieta em uma perspectiva totalmente diferente do que estamos acostumados com Shakespeare, me deixou ansiosa para começar o mais breve possível essa resenha. 

Nessa narração, descobrimos que os acontecimentos que deram tanta fama ao dramaturgo e escritor Shakespeare com a história de amor entre Romeu e Julieta é uma farsa, é mais uma mentira contada para distorcer a verdadeira tragédia. Julieta Capuleto não tirou sua própria vida em um ato de amor. Ela foi vitima de um assassinato cometido pelo homem que mais amava e confiava, Romeu Montecchio, e sua horrível escolha foi apenas por querer a imortalidade da amada, porém o jovem nunca imaginou que a eternidade a transformaria em uma agente dos Embaixadores da Luz, um grupo enviado para proteger os inocentes e manter a segurança que os Mercenários ameaçam tirar das almas humanas, porém Romeu se transforma em um como consequência do seu sacrifício, e o seu principal objetivo por mais de setecentos anos é destruir o coração da humanidade e preservar a destruição enquanto luta contra a mulher que mais amou. 

Depois de setecentos anos tentando combater as ações destruidoras dos Mercenários, Julieta passa a ocupar temporariamente o corpo de uma jovem chamada Ariel, uma garota sem muita expectativa sobre si mesma, que sofre por se achar feia e diferente, o que a faz ser anti-social e tímida. Julieta tenta mudar sua perspectiva enquanto usa o seu corpo para encontrar um par de almas gêmeas e protegê-los das ações de Romeu, que ao longo da narrativa irá fazer o impossível para convencê-los a colocarem fim ao amor por meio da morte de um dos amantes. 

Julieta é uma garota ousada e forte, porém a traição de Romeu a tornou tão amarga e incapaz de amar novamente qualquer outro homem, Uma escolha errada a destruiu por séculos, e por mais que arriscasse cada reencarnação tentando proteger as almas gêmeas que estavam destinadas a ficarem juntas, Julieta sempre sentiu um vazio, algo que a deixava distante de qualquer sentimento, mas isso até a sua ultima reencarnação, até conhecer Ben. E parece que algo mudou para sempre. Ela finalmente aprendeu a amar novamente, a deixar o seu coração aberto para quem alguém o habitasse. Julieta se sentiu pronta para confiar e amar. 

Mas ela e Ben não estão seguros. Não por enquanto. É perigoso se permitir sentir desse jeito, já que os Mercenários a querem morta por ser uma simples Embaixadora. Romeu tenta persuadi-la com algumas mentiras, porém ela nunca se imaginou acreditando em suas palavras novamente, para ela, é preferível a morte do que confiar no cara que a matou. O inacreditável da historia é que Romeu a salva do pior destino que Julieta poderia ter. Um jovem arrependido de todos os pecados, e pronto para redimir seus erros e ir atrás do perdão, mas o lado negro ao qual pertence não permite que seus arrependimentos sirvam para alcançar a paz que não merece, mas que deseja a qualquer custo. 

Me senti totalmente empolgada para chegar ao seu final, e algumas partes me surpreenderam mais do que outras, e algumas descobertas me fizeram entender algo que já sabia: o quanto o ódio pode matar alguém lentamente, mesmo que não seja uma morte física. Infelizmente, minha opinião se resume a chamar que a narrativa teve muitas partes confusas, partes em que era preciso voltar as páginas algumas vezes para entender o contexto, e algumas pontas soltas que talvez tenham passado despercebido por outros leitores, porém alguns detalhes fazem toda a diferença. Tirando esse pequeno deslize, a narração flui com naturalidade e suspense. É impossível não criar algumas hipóteses para o final dessa história de amor e ódio, guerra e paz. 

Escrever.

Imagem: via reprodução

Por cada lugar onde passo, questionam-me sobre o meu processo de escrita, o que significa definir-me como escritora e como sou capaz de conciliar tal atribuição as demais áreas da minha vida, afinal, em contrapartida, sou também estudante de psicologia e leitora voraz de inúmeros livros, oficialmente desde dois mil e onze, quando resolvi aventurar-me nesse universo imaginativo e decidi, após experimentá-lo, nunca mais sair. 

Possuo paralelo a estas aspirações, outros hobbies, como o fascínio gigantesco pela filosofia, o que que me permite pensar em uma possível outra graduação após psicologia, tento também aprimorar o meu gosto por cinema, porém as inúmeras responsabilidades e o meu laço inquebrável com a vida intelectual talvez boemia não me possibilitam assistir tantas séries e filmes e posteriormente indagar de modo reflexivo a respeito de cada uma, embora sejam uma grande fonte de inspiração e saber. Culturalmente falando, estou em um processo constante de transformação e de apropriação de conhecimento e sabedoria, mesmo que seja da maneira mais difícil que alguém pode aprender: quebrando a cara ou se decepcionando.

Porém, a escrita, esse ato de bravura e de coragem, ocupa uma parte excepcional da minha vida, e a cada dia, seu impacto e significado aumenta proporcionalmente à medida que permito-me transformar o sentido que escrever tem para mim. Sempre ouvi dizer que devemos buscar nosso propósito e nos agarrar a isso, essa missão deve também consolidar ou formar uma parte de nós, no meu caso, escrever ocupa tudo que há em mim. Todas os vazios e os ocos que a vida não se encarregou de preencher, minhas partes faltantes, ou a ausência de coisas que o mundo inteiro consideraria como necessidade básica, a escrita completa.

Assumi a identidade de escritora há alguns tantos anos, embora meus primeiros registros escritos sejam datados de uma infância já marcada por questões inquietantes e particulares. Adotei a escrita como meu norte e porto-seguro oficialmente ao final de dois mil e onze, porém já apresentava tendências a essa escolha bem antes, quando me apropriei das palavras como se eu abraçasse meu verdadeiro propósito e aceitasse minha essência, ainda me pergunto se não foram elas [as palavras] que me escolheram. 

Escrever é parte essencial de quem eu sou, é o que me permite enxergar a vida desse jeito, ao mesmo tempo triste e feliz, como foi citado em as vantagens de ser invisível, é através das anotações, rabiscos e rascunhos feitos entre um ano e outro, um instante e outro, que me refaço como ser humano, que me descubro como mulher, que me permito ser conduzida por uma intensidade muitas vezes sufocante, por uma raridade que o mundo ainda desconhece, que exploro o meu lado criativo, extrapolo as sensações superficiais, adentro a profundeza de emoções que para muitos é assustadora.

Escrever é colocar a vida e todas as suas camadas, em palavras.

Sobre os personagens. Desenvolvo inúmeros, e eles acabam compondo contos, crônicas, prosas, poemas, narrativas curtas e micro histórias (na maioria das vezes, crônicas) e todos com traços peculiares, extraordinários, qualidades horríveis, aspectos desprezíveis, atitudes equivocadas, muitos deles estão sedentos por vingança, mergulhados em tristeza, marcados por decepções, outros acreditam que merecem uma segunda chance, estão crentes do perdão, sente-se perdidos no mundo, acreditam que o suicídio, as drogas e o cigarro são a resposta, outros possuem uma esperança admirável e coragem invejada, outros eu faço questão de matar, ou de permitir um final feliz, mas todos possuem algo em comum: todos escolheram seus próprios destinos, eu apenas guio as palavras para tal finalidade. 

Escrever é isso: escolher entre incontáveis possibilidades, quebrar barreiras, inventar pontes, desconstruir o utópico e entregar o possível, ou vice-versa, é a experiência contada, seja em primeira ou terceira pessoa, ou com um narrador onipresente relatando os acontecimentos, um cenário nova-iorquino ou a desgraça da zona leste. Quando escrevo, abraço as minhas interioridades, as  limitações e fraquezas existentes em mim, arranco-me daquela zona inerte de conformismo, da irrefutabilidade das ideias, da não aceitável do que é tangível para alcançar a exatidão do impossível, seja o amargo das descobertas ou o doce da própria invenção.  

Escrevo porque a vida também não basta, sou descontente com as definições, imposições, os manifestos inalteráveis, sou contra a ideia do não refletir, do não questionar, do significado pronto engolido, preciso de mais, e escrever me possibilita o mais, não de maneira fácil, como falou Pablo Neruda, escrever é fácil, você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias. A dificuldade está nas ideias, no pensar, no ato de viver em prol da criatividade, da transcendência das palavras, na ternura ou tragédia que pode haver nelas. Viver e escrever são somente sinônimos da mesma coisa, e ambas exigem criatividade. 

Apenas descobrimos o que é escrever, quando escrevemos, e apenas conhecemos o verdadeiro sentido da vida e o seu propósito, quando a vivemos. Encerro as minhas intermináveis palavras com um comentário marcante de Gabriel Perissé (doutor em filosofia da educação e mestre em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo): "há dois tipos de escritores: os que dizem sim a vida e os que dizem não."

Eu disse sim.





Desumanização | Valter Hugo Mãe

18 abril 2019

Desumanização é a primeira obra que li do autor Valter Hugo Mãe, um livro trágico e ao mesmo belo, sua linguagem poética me encantou, são linhas repletas de um sentimento único, revelador e significativo para qualquer leitor que mergulhe na história que é contada com tanta singularidade, porém é uma leitura que requer atenção, pois cada palavra precisa ser assimilada e incorporada à medida que o lemos. 

FICHA TÉCNICA
Autor: Valter Hugo Mãe
Título: Desumanização
Edição: 2° edição, 2014
Local: Portugal
Editora: Cosac Naify

Valter Hugo Mãe é um escritor português, nascido em Angola, porém radicalizado em Portugal. Formou-se em Direito e concluiu sua pós-graduação em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Ao longo de sua carreira como escritor, ganhou diversas prêmios em reconhecimento a sua grande capacidade de nos contar um universo intensamente marcado por obras fascinantes e arrebatadores, capaz de nos trazer uma nova perspectiva e compreensão daquilo que não estamos habituados. "Por vezes, tive a sensação de assistir a um novo parto da Língua Portuguesa", estas são palavras citadas por José Saramago durante a entrega do Prêmio Literário José Saramago. 

Desumanização é narrado a partir da concepção de mundo visto por uma criança, Halla, após ser obrigada a enfrentar a morte repentina de sua irmã, Sigridur, despedaça pela perda, ao regresso a um sentimento de falta e vazio, pela necessidade de torná-la eterna dentro de si; ausência esta que a devora inteiramente, que a faz tomar ciência de novas sensações, descobertas, pensamentos, o luto como um processo diferente para cada indivíduo, questionamentos, a uma apropriação forçada de amadurecimento, onde idade não significa unicamente o avançar temporal, mas a uma necessidade incontestável de lidar com as decepções. 

"Talvez a tristeza fosse um modo de amadurecer. O tempo também se conta pelos desgostos." 

Percebemos ao longo da narrativa a composição de parágrafos complexas, mas que não deixam de nos causar impacto, que fazem a nossa alma sangrar em demasia, que instauram um sentimento de reconhecimento e empatia com a desolação da personagem. Halla transforma-se de modo contínuo durante todo o texto, cresce (internamente) e aprende novas maneiras de enxergar o mundo e toda a circunstância imposta pela vida, como também adota diferentes formas de lidar com a perda e encarar a morte - que em nenhum momento deixa de ser sentida. Sigridur, sua irmã, torna-se um espaço vazio, porém a protagonista tenta, de diversas modos, preservar a sua essência através de memórias e lembranças, e da busca incessante por senti-la em seus próprios gestos.

Halla se vê em um local familiar onde não há aceitação, inclusão e pertencimento, sente-se perdidamente desconectada, e toda o preenchimento que Sigridur atribuía à sua vida desaparece do plano físico, permanecendo vivo somente em longas dores e pesares que começa a carregar dentro de si. Conhecemos a figura materna, perturbada e entristecida, que em nenhum momento oferece o que uma mãe deveria proporcionar. Halla, em um contexto totalmente novo, encontra proteção e um refúgio para a amenização de sua angústia em braços que até então acreditava ser incapaz de dar-lhe todo o alívio necessário, Einar, personagem que passa a ser parte essencial na história e da vida da personagem, e em uma nova esperança que passa a crescer dentro de si. 

Particularmente, a estrutura longa dos parágrafos me deu a sensação de estar fazendo uma leitura contínua, sem interrupções, e os diálogos são apresentados como se ocorressem na própria mente da personagem devido ao fato de não serem sinalizados com travessão ou em um parágrafo a parte, mas identificados pela própria protagonista. 

Além disso, na obra Desumanização, são elencadas características que enaltecem a grandeza da Islândia, cenário onde os conflitos se desencadeiam. A narração nos coloca diante da paisagem intensa e natural dos fiordes, vulcões e charnecas, como se o país ganhasse vida à medida que concluímos a sua leitura. Existem descrições que tive grande dificuldade de imaginar ou fantasiar por desconhecer a imensidão da Islândia. Afinal, nenhum país nos soa tão familiar como o Brasil, não é? 

Minha intenção não era tornar essa resenha grande, porém existem tantos aspectos importantes que seria impossível referenciar todos aqui, embora eu acredite que todos sejam essenciais. O autor trata de questões universais, como amor, ódio, descoberta, sexo, perda, também conceitos e definições para o que conhecemos e chamamos de deus, de poesia, da necessidade de fuga. Em cada página, parágrafo, ou frase há algo a ser interpretado e sentido. É impossível não vivenciar a carga reflexiva que há em cada palavra, porém somente se entregando a sua leitura é que podemos sentir toda sua expressão. 

"Eu senti que não tinha forças para ser melhor, só sabia seguir por inércia o que a vida me colocar diante."

Era Meu Esse Rosto | Marcia Tiburi

10 abril 2019

Era Meu Esse Rosto da autora Marcia Tiburi possui uma prosa excessivamente poética, frases construídas com metáforas e efeitos linguísticos que enriquecem a narrativa e com a inserção de elementos que permitem não apenas uma única interpretação final, porém várias à medida que o leitor concluí a sua leitura, pois são capítulos imbuídos de sentimentos e intensidade emocional, onde há frases que marcam profundamente o texto e que mexem de modo bastante reflexivo conosco.

FICHA TÉCNICA                                                                                                                       
Autora: Marcia Tiburi
Título: Era Meu Esse Rosto
Ano: 2014
Editora: Record
Edição: 2ª edição

Os capítulos são alternados entre a infância do protagonista – uma voz masculina já adulta que conta em uma ordem cronológica diferenciada do que estamos habituados dentro da literatura contemporânea, a sua relação com seus avós, tios, e irmãos em um ambiente marcado pela obsessão com a morte e todos os contornos e expressividades que a envolvem, vendo-a como uma sombra que sempre acompanha o indivíduo – e entre o protagonista adulto que em busca da resolução de pontas soltas que carrega consigo desde a infância embarca em uma cidade que desconhecemos sinalizada apenas pela letra V. 

As duas narrações dissemelhantes se completam, e enquanto uma mostra o início de uma paixão descoberta a partir da máquina fotográfica roubada do tio, a outra nos apresenta a grande necessidade do protagonista em registrar através de sua lente as facetas do que é observável, estatizar as impressões que muitas vezes nossos olhos não permitem perceber. 

É uma obra repleta de complexidade, e existem, por todo o texto, instantes de não entendimento, de reflexões e questionamentos, porém é uma leitura de reconhecimento em um retrocesso em busca do passado, das origens familiares, da memória resguardada e oculta, onde tanto o presente como o passado se complementam, se entrelaçam formando um rosto com fragmentos do que foi. É uma leitura valiosa por nos apresentar um adulto que pelo seu ponto de vista nos apresenta fatos e acontecimentos onde a morte pode ser vista em contraste com a própria vida, como se as duas dialogassem entre si, tal percepção fica clara ao lermos:

não posso dizer que sei a diferença entre a vida e a morte

O Grande Mentecapto | Fernando Sabino


O Grande Mentecapto de Fernando Sabino é uma mistura de sentimentos, gostos e expressões, e ao longo da resenha vou explicar porque o considero uma combinação de várias características, mas por enquanto digo que a sua leitura me trouxe uma perspectiva nova de humor com tragédia, o que é possível de perceber em cada página a partir das aventuras e desventuras de Geraldo Boaventura mais conhecido ao longo da história e por todos os lugares onde passa como Geraldo Viramundo, o grande protagonista dessa longa jornada nos mais inusitados cantos de Minas Gerais. 

FICHA TÉCNICA
Autor: Fernando Sabino
Título: O Grande Mentecapto
Ano: 1979
Editora: Record
Idioma: Português

Geraldo Boaventura antes de se tornar Viramundo, foi uma criança levada como qualquer outra, viveu uma infância repleta de brincadeiras e divertimento, porém o seu grande feito durante essa época foi conseguir parar um trem que não fazia nenhuma parada em Rio Acima, localidade de Minas Gerais onde morava com sua família a beira de uma estrada, e apesar da forte emoção vinda dessa grande façanha, outra tragédia inusitada acabou se desenvolvendo a partir daí, o que impulsou a decisão de Geraldo Boaventura de ir para um seminário em Mariana. 

Então conhecemos a história de um rapaz que se transforma finalmente em um homem, e enquanto vamos nos aprofundando em suas várias peregrinações após o fracasso em se tornar padre, o observamos perder a sua essência ao longo de suas idas e vindas sem rumo a diversas cidades de Minas Gerais, entre elas Ouro Preto, Barbacena, Juiz de Fora, Uberaba, São João Del Rei, e inúmeras outras que acolhem tão rapidamente o grande mentecapto em suas mirabolantes aventuras. Em cada passagem Geraldo Viramundo conhece pessoas, faz amizades, arruma grandes confusões, inventa soluções para os mais diversos equívocos, e se coloca em situações de perigo. 

Um andarilho que vaga sem rumo em direções que não conhece, desbravando o desconhecido na intenção de cumprir o seu destino, mas que ao longo de sua caminhada perde-se de si mesmo, questionando qual o grande sentido de tudo o que vivia, de cada detalhe no qual se deparava. Geraldo Viramundo é um sujeito inocente, possuidor de um bom coração que ainda acredita na bondade do ser humano, ingênuo a ponto de não conseguir perceber a maldade alheia e a perversidade tão intrínseca a nós, mas também é um herói brasileiro, que embora sofredor e humilhado, continua de pé. 

De acordo com o dicionario online de português o significado de mentecapto: aquele que não possui nem utiliza a razão; mentalmente desorganizado; sem juízo; maluco: com a doença perdeu a capacidade de pensar logicamente, tornando-se um mentecapto, escassez de capacidade intelectual; falta de inteligência; tolo, idiota.

Será que em algum momento de nossas vidas não deixamos de ver com clareza o que há por detrás de certos comportamentos alheios? Não fomos grandes mentecaptos como Geraldo Viramundo? Não caminhamos com a mesma insistência do personagem sem ao menos saber qual rumo estávamos seguindo, ou para qual destino estávamos sendo conduzidos? Será que existe uma definição para loucura, e se existe, será que podemos chamá-lo assim?

Mesmo vagando alheio as grandes incertezas da vida, e em meio a todas as angústias presentes no Estado de Minas Gerais, em alguns momentos de sua jornada, este percebe e toma consciência de sua própria "loucura". Geraldo Viramundo era um grande amante da literatura, e conhecedor de um vernáculo admirável e também questionável, contentava-se com o pouco que possuía e para ele bastava a simplicidade da vida. 

O Grande Mentecapto nos apresenta sentimentos de empatia, de compreensão, trás no gosto da própria leitura uma sensação de humor e divertimento, embora haja uma expressão trágica em cada terrível e infeliz acontecimento de Geraldo Viramundo, principalmente quando este encontra o seu grande "destino". 

A Hora da Estrela | Clarice Lispector

16 março 2019

Existem livros que nos tiram de órbita e nos levam a uma galáxia totalmente desconhecida, quando voltamos a colocar os pés novamente no chão, sentimos a realidade ao redor ressurgindo fortemente em nós, e as incontáveis reflexões vindas de tantas palavras e entrelinhas, a nos sufocar a mente. A Hora da Estrela causa essa sensação estranha de pertencer e não pertencer, de pensar e não pensar, de sentir e não sentir. Clarice Lispector surpreende com toda a sua escrita, conduz cada um dos seus leitores a um caminho repleto de reconhecimento, semelhança, negação, e tantas outras características tão intrínsecas ao seu jeito cativante de compor imaginação e nos ensinar o sincero amor pela leitura, embora a Hora da Estrela seja uma obra diferente do que a autora estava costumava a apresentar aos seus leitores.

Sinceramente, eu o havia pegado emprestado na biblioteca do bairro em uma época em que o meu sentimento de admiração pelos livros ainda estava começando a se tornar real. E teria sido a primeira obra de Clarice Lispector lida por mim na vida se não fosse o meu adiamento e procrastinação em devorar as suas páginas. Aconteceram algumas vezes antes de eu pegar emprestado uma boa dose de coragem para finalmente começar e terminar a sua leitura, que aconteceu apenas agora. Antes tarde do que nunca, certo?

FICHA TÉCNICA
Título: A Hora da Estrela
Autora: Clarice Lispector
Ano: 1977
Páginas: 84
Idioma: Português
Editora: Rocco

Talvez a Hora da Estrela não tivesse me tocado tão de repente no mais profundo espaço dentro do peito se eu tivesse concluído em outro momento a sua história ou tentado mergulhar de cabeça nas palavras tão soltas de sua narrativa. Todo o desenvolver da obra é narrado por alguém que se identifica como Rodrigo S. M, e dedica as suas páginas a tentativa de contar a vida de uma nordestina que esbarrou no Rio de Janeiro, e desde então é perseguido pela necessidade incessante de contar-lhe a respeito de sua pacata e simples vida. 

Ao longo da narrativa, o Rodrigo S. M se perde em devaneios próprios a respeito do seu fazer artístico/literário, contando ao leitor os pequenos detalhes que compõem o processo de criação, embora faça o possível para continuar firme em seus versos sobre Macabéa. A possibilidade de não relatar a história da migrante o sufoca por dentro, tendo a necessidade urgente de externar os relatos da moça antes que os fatos o impossibilitem de continuar a narração. Embora o narrador diga que pareça haver um tom de simplicidade na história, afirma também que esta é escrita com grande dificuldade e contrariedade.

“Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventania soltas, pois eu também sou o escuro da noite”

Macabéa é uma jovem datilografa que vive sozinha, e segue sua existência de modo indiferente, sem expectativa de acreditar em um futuro para si por considerar tal possibilidade como um luxo, possuidora de uma estranha magreza não apenas física, na sua vida não cabia a esperança do mais, apenas a certeza aceitável do que é ralo, escasso, fraco. Ela era tão incapaz que mal podia perceber o quanto a sua vida ela infeliz, passava despercebida, invisível, sem cor. Seu vocabulário é escasso, é desconhecedora do mundo, seu único elo com este é um rádio que ouve.


“Quando rezava conseguia um oco de alma – e esse oco é o tudo que posso eu jamais ter. Mais do que isso, nada. Mas o vazio tem o valor e a semelhança do pleno. Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu – a meu mistério.”

A jovem apenas sobrevive, pois não tem a capacidade de viver, ou não sabe como.  Quantas pessoas sentem-se perdidas em sua própria vida sem ao menos saber que estão desaparecendo aos poucos. Macabéa desconhece a sua existência, desvaloriza o entusiasmo da vida por nunca ter se sentido realmente viva, apresenta uma ausência de saber a respeito de sua identidade e sua construção como ser humano. Enquanto Rodrigo S. M. aborda todas as questões existências de Macabéa, ao longo de sua narrativa percebo que ele se torna a própria consciência da jovem, sendo que ela se ausenta da certeza de sua vida. Um pouco filosófico reflexões como essa, mas o livro leva o leitor a se questionar quantos seres humanos compartilham essa mesma característica da personagem principal.

Quantas Macabéa existem por aí como seres desconhecidos e escapulidos da essência da vida?

O final da obra é a parte mais surpreendente da narrativa de Rodrigo S. M. sobre Macabéa. Não irei falar como se encerra essa história, ou como a protagonista chegou a sua hora da estrela. Coloco como ponto de interrogação e abro uma grande dúvida sobre o desfecho, mas garanto que ótimas reflexões serão necessárias, embora cada página seja de uma incômoda sensação de angústia, aflição e principalmente empatia com a personagem. Existem diversos aspectos que poderiam ter sidos comentados e apresentados nessa resenha, mas deixo a cargo de cada um a experiência literária acima. 

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E eu realmente gosto de você

01 março 2019

Gosto da gente juntos, gosto de sentir a sua respiração na minha pele e a sua mão segurando a minha de um jeito que me faz ter a certeza de que continuaremos juntos, não importa quantas tempestades eu faça dentro de um copo d’água ou quantas vezes você admita que ainda tem medo de eu te deixar, porque quando se trata da gente, parece não existir motivo algum capaz de me fazer ir embora. 

Gosto de acordar do seu lado quando o dia ainda nem amanheceu. Gosto da maneira como você me olha mesmo quando estou usando uma daquelas suas camisetas que ficam largas demais em mim. Gosto de quando você finge não estar com ciúmes, mas deixa transparecer no seu olhar, apesar de todas as suas tentativas de não demonstrar. 

Gosto de beijar a sua testa pela milionésima vez só pra te fazer entender que não pretendo estar em nenhum outro lugar que não seja ao seu lado, porque não existe porto seguro melhor do que dentro de um daqueles seus abraços. Gosto de ouvir as suas histórias de infância como se você tivesse fugido pra uma aventura sem pedir permissão, porque elas acabam se tornando as minhas histórias favoritas. 

Gosto de ouvir a sua risada repentina, porque ela parece mais perfeita do que a nona sinfonia de Beethoven, mas o melhor ainda é quando os seus risos se misturam aos meus, é quando tenho a sensação de que não existe nada tão mágico do que aqueles momentos em que acabo me entregando de corpo e alma, e cê nem pensa duas vezes antes de fazer o mesmo. Gosto de ouvir as suas declarações sussurradas no meu ouvido até todo o meu peito se arrepiar, e gosto principalmente de quando juntamos os nossos corpos num emaranhado de pernas e braços, e ficamos ali, amando em silêncio, porque eu realmente gosto da gente juntos, gosto que seja eu e você a noite, em uma tarde de tédio, em uma manhã repleta de sono, não importa, contando que seja eu e você. 

Eu quero cuidar de você

16 fevereiro 2019

Conheço bem a frase que diz que ninguém é de ferro, que em algum momento ou outro, iremos tropeçar em nossos próprios passos, mas não porque sejamos fracos, mas porque todos nós precisamos de um tempo, e nem que esse pequeno intervalo seja entre uma queda e outra,  e independentemente do quão cansado você esteja, eu vou cuidar das tuas feridas e dos teus machucados até cada um deles estiverem cicatrizados. 

Sei que talvez você desabe em lágrimas, e talvez eu já saiba que você irá fazer mais do que o impossível para disfarçá-las, mas não adianta esconder os sentimentos no peito ou trancafia-los a sete chaves, porque eu conheço cada gesto, por mais simples que seja, conheço as tuas simbologias, as tuas impressões, as tuas recaídas, e eu sou capaz de mergulhar em cada faísca miníma de sentimento que ameaçar vir a tona.

Mas eu não me importo para os teus humores repentinos e os teus momentos de pura raiva, porque eu já senti a tua essência só de encarar os teus olhos castanhos e toda a profundidade deles, quando eu me faço presente nos teus silêncios e adentro nas curvas do teu peito mesmo sabendo dos riscos, mesmo sabendo com toda a certeza do universo que não desejarei sair dos teus braços, porque é lá que deixo claro a minha ânsia de cuidar do que é meu: você. 

Quero esvaziar a tua mente das preocupações inevitáveis, tentar te fazer esquecer dos erros que tu não conseguiu evitar, esvaziar o teu peito do mundo lá fora, das consequências de escolhas não feitas, de falhas que ficaram no histórico, de longas conversas que não levaram a estrada alguma, de desistências que ficaram mais no presente do que no passado, quero ir destravando os teus medos e inseguranças até não sobrar absolutamente para se apoiar além de mim. 

Vou insistir até o fim para preencher qualquer vazio que tenha ficado em todas as vezes em que eu precisei ir embora porque já estava tarde e tu precisava terminar a pilha de tarefas do trampo, mas não importa qual tenha sido a saudade da vez, eu sempre irei voltar para te fazer sentir mais de mim, cada vez mais fundo, porque eu só penso em cuidar de você e de nós. 

Hoje ela sente saudade, já amanhã ninguém sabe

10 fevereiro 2019

Agora ela tá sentido que cada batida do coração é um grito de saudade silencioso que parece afogar o peito em saudade, de vez em quando aquelas lágrimas surgem de repente só para avisar que ainda existe um vazio inteiro dentro de si, mas apenas por enquanto, porque amanhã talvez a saudade vá rastejando para fora do peito em descompasso, talvez no dia seguinte ainda haja aquela pequena dor revirando os cantos que outro alguém ocupava, mas um dia as lembranças que a deixam tão embaraçada, que lhe arrancam o sentido tantas vezes no mesmo dia, vai ser apenas uma poeira, uma recordação distante que já não insiste em ficar, porque já foi, e passou. 

O vazio que ficou ela mesma vai preenchendo, parece que tem o dom de encontrar felicidade dentro de si, por mais que haja vezes em que esquece de toda a força que carrega consigo, basta um pequeno empurrãozinho para encontrar o que é essencial em meio a toda bagunça que luta para arrumar. Alguns dias é mais difícil que outros, quando o céu é carregado de cinza, dentro dela é sol, e às vezes quando o domingo de manhã é ensolarado, seu peito é uma grande ventania sem fim. Não é apenas a vida que é imprevisível, ela também é, mas só porque ainda está aprendendo a se manter firme diante de todo o desequilíbrio que insiste em tirá-la do eixo, como aquele fim que a sufoca todos os dias. 

Ah, sobre aquele fim, se o mundo soubesse quanto doí. Ela teve que ter coragem o suficiente para ir embora quando percebeu que ficar já não bastava, quando dois caminhos não se cruzam, não adianta tentar mudar a estrada do outro, é necessário aceitar a sua, e ela aceitou, precisou antes disso entender que não daria certo, e que tudo bem dar errado de vez em quando, que é impossível acertar de primeira, mas a sua grande decepção é ter acredito que havia encontrado a pessoa certa, puta que pariu, parecia que ia dar certo, no começo era perfeito, mas depois o amor não era mais capaz de unir dois corpos que na ânsia de ficarem, tiveram que partir. 

E todos os dias ela repete a si mesma que está tudo bem ter quebrado o seu coração uma vez, mas também diz com toda a certeza do universo que aos poucos a vida vai curando as feridas que ficaram, vai desfazendo as pontas soltas, os maus entendidos, transformando o saldo de culpa em amor-próprio, mas por enquanto está tudo bem sentir a saudade esburacando o peito e enchendo os olhos de lágrimas, porque um dia isso vai passar, e quando olhar para trás, ela vai perceber que depois desse fim, vai se reerguer mais forte que antes e agradecer a ele pela mulher que se tornou, porque tudo nessa vida é aprendizado, e cada aprendizado é uma oportunidade para ela ser melhor.

Hoje ela vai acordar com saudade, vai sentir falta, vai se desmoronar algumas vezes, e talvez até chore escondida antes de dormir, talvez culpe o dia nublado pelo mal humor, o dia ensolarado pela enxurrada de lembranças, se pergunte como fazer essa angústia acabar por completo, vai resistir a vontade de mandar uma mensagem, de stalkear nas redes sociais, vai imaginar que o outro está vivendo uma nova história, mas um dia, quem sabe em uma quarta-feira, em um fim de semana, em uma viagem, em companhia de alguém especial, ela vai ter seguido em frente sem ao menos se dar conta disso, as lembranças serão apenas velhas recordações que não terão mais o poder de antes, terá esquecido que um dia sofreu com tanta intensidade por alguém que não irá fazer parte do futuro e nem do presente, apenas do passado. 

Um dia ela vai se deparar com outros sorrisos, novos olhares, até mais bonitos que o dele, e aí finalmente vai ter a certeza de que todas as feridas foram curadas, que a partir daí estará tudo bem, porque não existirá mais saudade, e caso ela se esbarre com ele de novo sem querer querendo - porque o mundo às vezes se torna pequeno - vai se lembrar de alguém que nunca a amou o suficiente para fazê-la ficar e que em matéria de desinteresse, aprendeu a ser feliz com alguém que realmente queira sentir algo, e não apenas fingir.

Eu escolhi desistir de nós

06 fevereiro 2019

Fico me perguntando o que teria acontecido se a gente tivesse continuado juntos. Eu sei que fizemos vários planos, desde a nossa próxima viagem até como seria o nosso casamento, quais seriam os nomes do nossos filhos e até discutimos se teríamos um gato ou um cachorro. Fizemos algumas promessas que não serão cumpridas, desenhamos um futuro que agora já não existe mais, porque cada um precisou seguir em frente sozinho, deixando uma história inacabada, algumas páginas incompletas que agora não dá mais para voltar atrás e tentar preenchê-las. 

Mas eu tenho um defeito: odeio deixar as coisas pela metade, e saber que deixamos uma parte do que construímos em algum ponto do passado me sufoca, porque eu sempre me vejo perguntando a mim mesma o que teria acontecido se tudo tivesse sido diferente, se aquela briga nunca tivesse existido, e se tivéssemos tentando apagar as pontas soltas que ficaram entre nós. Ninguém me avisou sobre as decepções, sobre a dor que fica e não vai embora, ninguém me contou sobre as partidas repentinas e  muito menos sobre o aperto que não dá para evitar, mas se alguém tivesse me contado sobre o inesperado que a vida reserva, eu também não teria acreditado, porque parecia que ia dar certo, mas só pareceu mesmo. 

A gente não vai mais conhecer todas as praias que listamos ou fazer aquelas viagens de fim de ano que sonhávamos, não iremos comemorar os próximos natais e nem assistir a queima de fogos juntos da varanda do meu prédio. Não vamos mais precisar discutir o futuro, nem escolher qual será o sabor da pizza em uma noite de sábado enquanto assistimos Netflix, não vamos mais escolher na sorte a qual lugar iremos no próximo fim de semana, porque a gente sempre terminava em discussão, lembra? Sabe toda aquela ideia de traçar juntos as metas e objetivos? Então, pode ir esquecendo; aquele papo todo sobre construir uma família, sobre comprar uma casa próximo da praia, juntar dinheiro para irmos a Portugal, pode deixar pra lá também.

Talvez você deva estar se perguntando o que acontece quando uma história de amor chega ao fim, quando chega um momento em que não haverá nenhum capítulo a mais para acalmar o coração e nem preencher as lacunas que ficaram. Não é porque precisou acabar que eu vou arrancar tudo de você que ainda existe aqui dentro, não dá. Levo um pouco de você no meu jeito leve de ver a vida, levo as suas manias no peito, seu orgulho irreparável que me fazia te amar cada vez mais, na playlist do celular tem até alguns rock's que aprendi a ouvir graças a você, embora eu jamais tenha abandonado meu gosto pelo sertanejo, que no começo você tanto odiava, mas acabou se acostumando.

Mudei cada pedaço da nossa história, e de algum jeito, o que tivemos também me mudou. Todas os planos que criamos, os rascunhos que fizemos, as nossas brigas, os gritos que ninguém esperava, as risadas que duravam horas, a raiva de segundos, os beijos repentinos, os almoços de domingo, a sua comida que eu tanto amava, as declarações que vinham com tanta naturalidade... Não dá simplesmente para apertar um interruptor e excluir todos os meses que passamos tentando decifrar e conhecer um ao outro, porque cada construção mal feita ou concluída, cada tombo do seu lado, tudo isso me transformou, e eu não posso arrancar você de mim. 

O Cortiço | Aluísio Azevedo

02 fevereiro 2019
Foto: interesses-sutis.blogspot.com
O Cortiço é um livro que todo mundo deveria ler pelo menos uma vez na vida, além de ser uma leitura obrigatória para alguns vestibulares, é uma obra fascinante por contextualizar as principais características de uma época, e por abordar em sua narrativa traços marcantes intrínsecos aos aspectos naturalistas a fim de compreender uma conjuntura diferente do que estamos habituados a reconhecer na sociedade. 

A obra se inicia com a tentativa de João Romão para acumular capital e conquistar a qualquer custo seus grandes objetivos, uma das características mais perceptíveis do personagem ao longo da narrativa é a sua ganancia exorbitante pelo dinheiro e sua busca frenética para enriquecer. Recebendo ajuda de sua amante, Bertoleza, ambos conseguem construir um cortiço que passa a abrigar diversas famílias, tralhando de domingo a domingo, sem descanso e privando-se em detrimento da grande ânsia pelo enriquecimento. Em contrapartida, Miranda, um comerciante na alta sociedade e bem estabelecido financeiramente, compra uma propriedade ao lado do cortiço, dando início a uma guerra entre ambos. João Romão o inveja silenciosamente, aspirando para si tudo o que o outro possuía, esperando que algum dia também pudesse usufruir dos mesmos bens, da mesma posição social, e ganhar prestigio semelhante. Quando Miranda é agraciado com o título de Barão, João Romão inveja-o ainda mais e com uma fúria avassaladora e uma urgência em ocupar uma posição na alta aristocracia, decide mudar seus hábitos e costumes até então defendidos e assume uma postura requintada, frequentando lugares pertencentes a burguesia, mudando suas vestimentas, pois para alcançar o grande reconhecimento que desejava também era necessário refinar-se. 

Já o cortiço, um ambiente confinado de pobreza, miséria, e uma luta diária em busca de sobrevivência diante de condições precárias de higiene e ausência de bons modos, expandia-se cada vez mais, engolindo famílias com uma ferocidade ameaçadora. Não havia esperança naqueles cubículos minúsculos, e à medida que os seus moradores eram conduzidos pela escória que ali habitada e pelo próprio esquecimento do restante da sociedade, viam-se invisíveis e mergulhados na fúria de agarrem-se a coletividade para se manterem vivos a rastejarem mais um pouco


“Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo.”

O cortiço fazia-se presente em cada pedaço de corpo que perambulava por suas habitações, forjava-se com tanta insistência em seus inquilinos que ambos pareciam uma unidade minúscula, um microcosmo ajuntado e esmagado, mas pertencentes ao mesmo tipo sanguíneo. As estalagens eram revestidas de uma tensa brutalidade, como se ali estivessem animais grosseiros a se despencar um contra o outro, a beliscar-se sempre que possível, havia um ar bárbaro e feroz, um tom de mal criação habitado nos próprios animais, desconfigurados das características de gente para serem tratados como bichos soltos a procura de selvageria. 

É perceptível ao longo da narrativa a singela maneira como o autor propicia declaradamente em diversos trechos a comparação da humanidade ali encanecida com a animalidade que parecia ser produzida entre os moradores, escapando descontroladamente a bestial maneira de vê-los. O cortiço ganha vida própria, abre-se suas inúmeras janelas como se pudesse ouvir deste um gritante bom dia após o crepitar de mais um dia convivendo com as primitivas desordens que ali sondavam.

“E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.”

Aluízio Azevedo traz em seu romance uma carga imparável de naturalismo, movimento artístico e literário que trouxe suas primeiras raízes para a obra O Cortiço, conduzindo uma narrativa idêntica e semelhantes aos fatos como verdadeiramente são vistos, abordando contextos que nunca antes haviam sido discutidos com tanta vivência como foi proposto. Aluízio Azevedo apresenta todas as faces da realidade, sem precisar ocultar nenhuma outra. A existência como realmente é, sendo conduzida por um caminho efetivo e prático. 

O cortiço é apresentado a nós como se fossemos pequenos observadores de fenômenos sociais e desdobramentos postulados como hereditários. As suas estalagens velhas e ranzinzas descompõem a figura do sujeito até descompô-lo por completo, obriga-o a vesti-lhe as suas mesmas vestes e apoderar-se firmemente de sua dominância, seus cômodos abarrotados e a sujeira ali estagnada adentram o pouco de decência daqueles seres humanos, agarrando-os sem permitir que consigam colocar os pés para fora, e mesmo que possam, é impossível retirar os vestígios existentes dentro dos moradores. O cortiço se agarra as entranhas com a promessa de nunca mais soltá-las, e consome qualquer espécie de esperança que haja em seus habitantes. 

Influenciado por ideais deterministas, acreditava-se firmemente em um conceito chamado de hereditariedade, afirmações que diziam que o ambiente em que vivemos e o meio social ao qual estamos inseridos são capazes de determinar o comportamento do sujeito, e predizer o seu destino. Na narrativa, observamos a impossibilidade de ruptura, impossibilidade de encontrar qualquer brecha, impossibilidade de quebrar as barreiras que ali foram postas e que rastejam com tanta insistência nos seres que habitam o cortiço. 

“Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o instinto, o faro sutil e desconfiado de toda fêmea pelas outras, quando sente seu ninho exposto”.

Vemos a sociedade escancarada e formada dentro das estalagens como pequenos objetos de experiências espalhados em linha reta, formando uma fila de pequenos vestígios, somos conduzidos a analisar as podridões expostos de uma maneira científica, onde o homem perde-se de seu próprio destino para viver inevitavelmente no conjunto de seus instintos e lástimas. 

O ser humano é a resposta de um conjunto de fatores. Aspectos sociais, culturais e tudo o que é vivenciado ao seu redor o moldam, porém não o determinam. Somos frutos do meio, influenciados pela família, círculos de amizade e convivências, porém ainda assim, temos o livre-arbítrio para escolher como tais influências nos conduzirão ao longo da vida, se as escolheremos para ditar a estrada a qual seguir ou se olhamos para outra que melhor nos cabe. Hoje, não estamos mais sentenciados ao destino sem lutar, ainda encontramos as mesmas limitações, deficiências e amedrontamentos, também podemos traçar um caminho diferente se verdadeiramente tentarmos, porque sabemos que isso é possível. Naquela época não, presos em grades que não conseguiam sair, afugentavam-se nelas, até que o primeiro pássaro foge da gaiola, e voa. 

O cortiço é uma obra prima que deveria ser lida por todos, uma leitura para ser analisada com um outro olhar e uma mente aberto a vivências que nos aproximam de uma humanidade tão dificilmente discutida hoje, que deveria ser mastigada com um bom gosto de crítica e reflexão.

eu sou o monstro | poema

23 janeiro 2019


Busco a cura para feridas que não cicatrizam,
mas também sou o veneno para os dias sóbrios.
Me desnudo da falsa esperança que me mantém
quase com vida, enquanto mais da metade de mim cai em luto.

Me pergunto se pertenço ao engano,
aquela destinada a contar mentiras que devoram a carne 
e agonizam a expressão de calma que me detenho a agarrar, 
ou se continuo real, e essa realidade é a mesma destruidora 
e dolorosa a que me permito fugir.

Busco o remédio para ressurgir novamente,
retornar as cinzas lançadas ao mar outra vez ao seu esconderijo, 
mas também sou a doença que consome a sanidade,
luz brilhosa,
o afago generoso,
os dias melhores.

Sou a praga que toca o estrago em cada esquina
e beijos adocicados, que se trocam por amargos que não controlo.
No mesmo frasco, me cabo o monstro que dizem que sou, 
enquanto tudo o que preciso para adormecê-lo continua no
mesmo pote.

Mas não sei a dose exata para acalmar a fera besta que sou,
não me importaria de matá-lo com um golpe seco e frágil,
nem se ao menos pudesse
fazê-lo não existir diante do meu temor.

Sou a cura, mas ao mesmo tempo sou o veneno, 
aquela que mata e devora a si própria em desalento,
e salva a si em façanhas inusitadas, 
que ninguém consegue finalmente ver, 
porque todos os olhares acanhados 
e temerosos continuam fixos
sobre o monstro.

Diálogo #4 Eu ainda penso em nós

16 janeiro 2019

- Ontem fez exatamente um ano que terminamos - eu disse.
- Achei que você já tivesse superado. 
- Mas eu superei - menti.
- Então porque falou isso depois de tanto tempo? 
- Ah, sei lá. Algumas vezes é impossível esquecer uma história como a que eu e ele tivemos. 
- Ele não te ligou mais? 
- Ligou. 
- E você não atendeu?
- Claro que não - disse.
- Qual o problema de atender? Talvez ele tenha alguma coisa para falar. 
- Não sei se gostaria de ouvir. 
- Você tem medo? 
- Medo? 
- É, de se arrepender de alguma escolha que tenha feito no passado. 
- Dar um tempo era a única escolha que eu tinha. 
- Tem certeza? 
- Às vezes eu acho que foi melhor assim, sabe. Não estava dando certo. 
- E se você tentasse de novo, só que agora. 
- Agora? - eu ri. - Até parece que ele iria querer. 
- E você? Não? 
- Sinceramente, não sei. Mudei meus objetivos, mudei tantas coisas...
- Menos ele da sua cabeça, não é? 
- Quer saber a verdade? Ainda penso nele, às vezes, quando não tenho nada para fazer.
- Fala isso pra ele, então. 
- Quando ele ligar?
- Pode ser. 
- Acho que não tenho coragem. 
- Que tal tentar da próxima vez? 
- E eu falo o quê? 
- Tudo o que você sente. Ainda sente. 
- Nem sei mais o que sinto. Não quero me decepcionar de novo. 
- Você nunca vai saber se não tentar. 
- Mesmo correndo o risco de levar um não?
- Se fosse pra isso acontecer, ele não teria seu número salvo. 
- É, mas...
- Não fica colocando barreiras ou inventando desculpas. 
- Estou adiando o que eu quero fazer. 
- Não precisa disso, porque você ainda pensa nele. 
  Eu sorrio. 
- É, talvez eu ainda pense. 

Olha o que eu te escrevi, rapaz

12 janeiro 2019

E aí? Já faz tanto tempo, né? Talvez você tenha se esquecido de mim. Espero que tenha conseguido seguir em frente da mesma maneira que eu consegui, e acredita que nem foi tão difícil assim viver a minha vida sem você, porque não ter você do meu lado parecia o certo, parecia que era correto abrir de tudo o que eu sentir pra ser feliz, afinal, era a minha felicidade e o meu futuro em jogo. 

Eu perdi as esperanças em encontrar um novo amor depois que a nossa história não deu certo. Depois que eu percebi que você só iria somar na lista de escolhas erradas que fiz, eu desisti de procurar o cara certo, porque depois de tanta gente errada entrar na minha vida e me bagunçar inteira, eu já não era capaz de quebrar a cara mais nenhuma vez. Já não aguentava me iludir tanta. 

Quando eu finalmente consegui te esquecer, desacreditei que o amor fosse pra mim. Parecia muito distante a ideia de poder entregar o meu coração novamente, por isso eu mudei tanto o jeito de pensar, mudei minhas atitudes e fiz o possível pra não me permitir sofrer tanto de novo. 

Eu culpei você durante muito tempo, sabe? Mas eu aprendi a não te culpar por você não saber amar, e apesar de tudo, eu tô torcendo pra você aprender, pra ter a sorte de encontrar alguém que seja capaz de mostrar que amor não é exigir mudanças, ou ter a liberdade de criticar quantas vezes quiser, e nem julgar os defeitos de alguém quando achar conveniente. Espero que você consiga entender o que é amor de verdade, porque eu finalmente pude senti-lo. 

Pois é, quando eu achei que fosse impossível amar de novo, alguém apareceu e mudou a minha vida. Aconteceu de repente. Não estava nos meus planos recomeçar a minha história ao lado de alguém, mas foi a melhor surpresa que a vida já fez, e eu me permiti sentir tudo com uma intensidade que fez o meu peito transbordar de paixão. 

Quando você encontra alguém que se encaixa perfeitamente em você, a gente passa a ter todos os motivos pra agradecer, porque não é todo mundo que tem essa sorte, e porra, eu tive. Encontrei alguém que faz o meu coração acelerar só de falar algumas palavrinhas, atitudes que fazem com que eu me apaixone mais e mais todos os dias, alguém que eu poderia ficar observando durante horas e horas, e mesmo assim, eu nunca me cansaria, porque é essa pessoa que faz o meu dia brilhar, e que a faz a minha semana nunca ser a mesma, porque eu amei de tal forma, que me tornei mais forte pra enfrentar qualquer problema ou obstáculo. 

Eu sei que você errou comigo, e que agora não dá pra concertar todos esses erros, mas você pode tentar fazer diferente com todas que entrarem na sua vida, dessa vez pode dar certo, talvez agora seja a sua hora de ser feliz e de mudar alguém pra melhor, que você encontre o amor que você nunca foi capaz de me oferecer. 

Quando a faísca da vida se apaga

09 janeiro 2019

Não sei se foi a vida que mudou ou se em um estalar de dedos fui eu que acabei mudando. Talvez tenha sido uma daquelas tempestades que me arrastaram para longe, ou talvez aquele chuvisco fraco de verão que em gota em gota me desfez. Tão rapidamente eu perdi as faíscas que me mantinham acessa, hoje sou o restante de um fogo apagado, destruído pelas ventanias repentinas que me sacudiram o restante de cinza. 

Eu era uma chama que tremeluzia ao estalar de qualquer chamado. A vida gritada o meu nome nas noites silenciosas de verão, me fazendo acompanhar o seu ritmo frenético em meio a sua desordem, alucinada pelo desesperar de suas cantigas silenciosas que me aturdiam as madrugadas. Eu era o jeito que a vida encontrou de sorrir, até o lento instante em que a faísca que me prendia ao gosto intenso da beleza de existir se apagou. 

Essa faísca brilhosa que me acendia a vida, que me fazia ser a lareira em chama na busca de mais combustível para continuar crepitando entre o inverno e outro, que me fazia dançar calorosamente e me desenrolar em uma combustão desastrosa que me consumia por inteiro, já não me acende o gosto pela vida, aqui é vazio, oco, ausente de esperança e morto. 

Sou cinzas, agora. Me desmancho em mim mesma, deixando a paixão adormecida, o fulgor que antes me conduzia a minha inspiração e entusiasmo gritante agora é só um rito de passagem silencioso e inexistente, invisível com suas pegadas sobre a areia que a mará do mar insiste em apagar. A vida me desencontrou em algum momento, e continua se esquivando de mim enquanto a minha procura cessou. 

Já não tenho faíscas para brilhar ou sentir o gosto da vida me chamando. Inexisto na prisão da existência desse tempo que jazz morto em mim. Sou cinzas, apenas.

o resto

05 janeiro 2019



o resto

Tenho chorado rotineiramente por todos os cantos onde me arrasto,
as lágrimas são uma constelação tão conhecida que as decorei no pensamento,
enquanto me devoram por inteiro eu me refaço em pedaços vazios.
Não há música que consiga replicar o som lastimável que os meus pés
fazem quando me conduzo em um ritmo sonolento e descalço.

As cores se desfazem uma a uma,
mas vejo a escória amargurada me tocar a alma em uma espécie
de grito entalado que perturba meu silêncio.
Resta um barulho que denuncia o choro fanhoso que não
desgruda de minhas entranhas incineradas.

Uma lágrima resta quando
todo o restante queimou em brasas.

Alguém enxerga a escuridão devorando meus olhos castanhos 
e me conduzindo lentamente em direção aos meus delírios frenéticos, 
descompassados,
traiçoeiros,
viciosos
e doentes.

Tenho olhos de quem vê a morte sorrateiramente aqui.
Resta um punhado de dor mantendo-me viva,
respirando entre confusões e distorções que já não me esforço para distinguir.
Repasso minhas tardes como alguém que espera dias melhores,
mas que vê apenas a escuridão resguardando essa espera e tornando
cinzento e ranzinza meu entardecer.

Tudo é ausência de cor.
A música já não me acompanha.
Assim como minhas palavras, que já não conseguem trazer o alivio 
para a agonia que transpira de minhas têmporas 
e de toda alma.

Mais coragem para sermos melhores que ontem

02 janeiro 2019

Passamos pela vida encerrando ciclos e desfazendo pegadas, colecionando sorrisos e esquecendo os tropeços dados pela metade do caminho. Fazemos escolhas e fingimos não ver os arrependimentos que ficam, lidamos com partidas inesperadas que pareciam que jamais aconteceriam, mas que acontecem. Guardamos memórias de pessoas queridas que foram embora, seja pela necessidade da vida ou porque decidiram que seria a melhor hora de partir. Silenciamos gritos porque temos medo da reação de quem possa escutá-los, apagamos vozes com receio do dizer. 

Escolhemos o anonimato porque o conhecido parece assustador. Escondemos os reflexos de quem realmente somos e das transformações inusitadas da vida porque enfrentamos a insegurança de não saber os nossos próprios efeitos, no mundo e em nós. Convivemos com a ansiedade por não sabermos o que o amanhã traz e o depois reserva, por não entendermos que a limitação nos permite chegar até o agora, e a partir daqui, seguir em frente. Enxergamos culpa onde deveríamos apenas agradecer pela mudança de rota da vida que nos permitiu chegar em um lugar melhor, onde cabemos perfeitamente bem. Percebemos tarde demais que a colheita feita por nós só é possível devido as mãos suadas que a plantaram, e que somos nós que decidimos se colhemos flores ou plantas com espinhos. 

Reclamamos com o universo sobre o que recebemos quando na verdade fomos os primeiros a mandar uma resposta negativa ao invés de procurar o positivo da vida, quando constantemente enviamos uma corrente de negatividade e somos recompensados com a mesma intensidade. Desejamos uma vida diferente, um saldo melhor na conta bancária, mais viagens a serem feitas no final de semana e saber o momento certo para mudar, porém continuamos no mesmo lugar, na sofisticada zona de conforto que alguns evitam sair, se prendendo as várias incertezas e fraquezas que carregamos conosco, se esquivando e fugindo, como se pudêssemos fazer isso a vida toda, e realmente podemos, mas que vida merece essa recusa?

Buscamos perfeições quando tudo de nós é o contrário. 
Seguimos caminhos diferentes, estradas só nossas, onde ninguém poderá caminhar por nós.

A vida não é o quebra-cabeça mais fácil do mundo, e não possui um manual de instrução para os momentos em que ameaçamos cair, e nem a receita mágica para transformarmos as nossas fraquezas em força e os nossos medos em coragem sem lutar, porque a disposição para melhorar é uma constância que não para, somos tão infinitos que nossa capacidade de ir além não encontra ponto final, apenas reticências, onde podemos continuar de onde paramos, refazer os passos em direção a uma nova caminhada, encontrar paz depois de passarmos ao inferno mais vezes do que podemos contar, enfrentar as nossas parcelas de culpa sabendo que podemos criar oportunidades no lugar dos erros sempre que a vida exigir, entender finalmente que para chegar onde queremos também precisamos percorrer toda a distância que nos separa de nós e dos sonhos. A continuidade da vida permite termos mais coragem para sair do conforto e encarar os obstáculos de frente, cabeça erguida e coração valente. 

É por isso que desejo mais coragem para sermos melhores que ontem, e fazer a diferença dentro de nós antes de cobrarmos o universo por tudo que ainda falta. Somos incompletos, mas não porque precisamos ter uma metade para nos completar, e sim porque a vida é uma descoberta diária, é uma vivência nova, e a renovação da esperança e determinação é o que nos faz buscar e encontrar novos sonhos e propósitos, porque somos incompletos para sempre caber um pouco mais da vida em nós mesmos.