Albert Camus | O Estrangeiro

03 setembro 2019

Já ouvi falar da estranheza do mundo, mas do indivíduo, foi uma novidade. Parece inverossímil dizer o quanto é possível um homem tornar-se indiferente a tudo, inclusive a sua existência, soa incomum afirmar que um ser humano é capaz de transformar-se num estranho em sua própria vida, porém quando citamos a obra ficcional de Albert Camus, O Estrangeiro, uma das mais conhecidas criações do autor e filósofo, adentramos o universo particular de um indivíduo que alienado pela passividade de sua vida, enfrenta o cotidiano de modo indiferente e com repleto distanciamento. 

Mersalt, a partir do instante em que nos introduz a sua história, observamos um sujeito pacato que começa narrando os acontecimentos tendo como estopim a morte de sua mãe, e recebendo-a em uma espécie de aceitação inesperada, totalmente desinteressado, e com ausência de qualquer reação sentimentalista, afetiva ou de enternecimento, como se esperasse o fato [a morte] há anos, e agora que o tivera são explicito diante de si, não significasse muito, ou valesse nada. Por diversas vezes, apresentou a seguinte justificativa "que a morte de sua mãe não era sua culpa". Embora esta seja sua postura, Mersalt conclui toda a formalidade do enterro e velório, a seu próprio modo. 

As frases mais recorrentes ditas pelo narrador-personagem ao longo da narrativa foram "tanto faz" e "não faz diferença". Em relação a tudo, Mersalt apresenta a mesma característica peculiar diante de qualquer dilema, enfrentamento ou situação da vida: grande indiferença, que para ele parece inteiramente normal, nada incomum, porém para nós, leitores, nos sentimos tendo à frente um homem cujo foco principal era não esboçar nenhum entusiasmo, expectativa, ou resposta que não fosse a capacidade de se esvaziar do sentir, tanto que em raros instantes da narração, nos deparamos com sentimentos tão comuns e essenciais do ser humano: felicidade, alegria, contentamento, tristeza, raiva, esperança. 

Mersalt parece inteiramente oco. Embora seja irresoluto e imparcial, podemos notá-lo como alguém preocupado em suprir suas principais necessidades: comer, dormir, manter relações sexuais, sentir frio, e soar diante da intensidade do sol, trabalhar, etc., porém quando se torna preciso demonstrar reações internas de acontecimentos externos, parece impossível percebê-lo como alguém que não seja tão irritantemente neutro. 

Ao final da primeira parte, Mersalt comete homicídio: mata um árabe; ao acaso encontra-o na praia onde estava com alguns amigos, conhecia-o [o árabe] por conta de acontecimentos anteriores envolvendo seu vizinho Raymond e a desavença deste com o árabe. Mersalt, sem planejar o assassinato, vendo-se diante da figura do sujeito na orla da praia, próximo a uma pedra, puxa o gatinho para matá-lo, e quando este jaz morto e sem sentidos ao chão, desfere mais quatro tiros sem ao menos hesitar. 

Mersalt não especifica porque decidiu tirar-lhe a vida, foi apenas um acontecimento inevitável, um acaso qualquer, porém mesmo acusado de homicídio, preso em consequência do ato, e julgado, este não apresenta nenhum arrependimento, remorso, reconsideração, mal lamenta o ocorrido com pesar. Naturalmente, ele se habitua a rotina da prisão, mantém o corriqueiro de sua vida também quando se vê sufocado por quatro paredes, atrás de grades e dentro de um cubículo minúsculo. Sente a sua liberdade retirada quando se depara com a privação do cigarro e do sexo, porém em nenhum instante se desespera, salve em um determinando momento da história, logo ao final. 

Albert Camus foi um filósofo que se debruçou em grandes pontos da filosofia, como sabemos, está área de conhecimento se prontifica a iniciar com uma pergunta, uma questão que nos leva a pensar, refletir e elaborar um pensamento único a cerca de algo, como ele não foi diferente. Por muitos, foi considerado um filósofo pertencente a corrente existencialista, embora negasse tal denominação, Camus esforçou-se internamente a procurar a resposta para "qual o sentido da existência?" Encontrou-a, porém a partir de uma perspectiva diferente. Seu pensamento ficou conhecido como Absurdismo, e a obra o estrangeiro é uma ficção que se debruça na tentativa de exemplificar tal conceito por meio de um sujeito que se depara com o absurdo da vida. 

Quem nunca, em algum momento da vida, seja perante uma multidão, enfrentando o cotidiano dos dias, a noite sozinho em plena escuridão e a cabeça repousada sem um pingo de sono, se questionou qual o sentido da vida, porque estamos aqui, qual o nosso propósito diante da vastidão do universo? É inevitável alguns destes questionamentos não terem sido alvo de investigações, reflexões, pensamentos e angústias. Inevitável. Já sucumbimos a ela, e por vezes, também adentramos crises intermináveis conosco, desavenças existenciais, e se a vida não tiver sentido? 

Bom, para Albert Camus e o absurdismo, não há sentido algum no fato de estarmos aqui, ou existirmos, ou ocuparmos um espaço do mundo, ou respirarmos. O mundo não tem propósito, não existe significado em nós, ou seja, possuímos uma existência desnecessária já que se fossemos extintos [e seremos] para o universo não faria diferença alguma. Nossa tentativa de atribuir significado e sentido para coisas que não tem sentido causa angústia, vazio, atormenta-nos constantemente. Por isso, o foco do pensamento de Camus é enfrentar e ultrapassar esse vazio e angústia. Mesmo tendo consciência da ausência de sentido: vale a pena continuar vivendo? 

A vida é absurda. O Estrangeiro é uma referência também a outra obra do autor, O Mito de Sísifo, ambas dialogam a questão absurdista da existência. 

Mersalt, em algum ponto da sua história, também conta a nossa. Sim, do mesmo modo, em algum momento da vida, também fomos estrangeiros, de nós e do mundo, encaramos com estranheza o decorrer por vezes tão automatizado dos nosso dias, atribuímos também importâncias mínimas por termos na ponta da língua a certeza de que tudo acaba, que tudo chega ao fim, que tudo será retornado ao pó, e então pensamos porque lutar com tamanha força, se esgueirar com tanta insistência, porque não abrir mão de tudo e caminhar [metaforicamente] sem a preocupação de nada, permitindo-se levar, empurrar com a barriga? 

Então pensamos naquilo que amamos fazer, no prazer de pequenos gigantescos detalhes que não nos escapam um único dia, que alimentam a força do espirito e da alma, mentalizamos a imagem, a figura, de quem ocupa com tanta facilidade o coração, e enche os espaços faltantes de nós com amor, alegria, amizade. Quando, de repente, a vida nos tira do avesso, ultrapassamos o que achamos ser o limite, o "não dá mais" sai morno dos lábios, gritado, o contorno de lágrimas, o desespero, algum problema fomentando a falta de esperança, é necessário pensar, esculpido no olhar, que tudo passa, que nenhum sofrimento fica, ele acaba, e acreditar que o depois pode ser ainda mais belo. 

Este é um jeito de vencer o absurdo da vida. 

Carta 1

02 julho 2019
Você nunca vai ler essa carta, mas eu não deixo de escrevê-la. 

Julho é o mês do seu aniversário, eu não esqueci, o engraçado é que eu vivia esquecendo, e agora me recordar dela é uma das poucas coisas que sobraram de você. Eu joguei tudo fora, sabia? Excluí as fotos, doei as roupas, me livrei dos presentes, mas ainda não consegui arrancar você do peito.

Acho que no fundo eu não quero desocupar o espaço que a sua falta me faz, a sensação que a saudade deixa de manhã e quando vou dormir. Doí demais. Eu consegui seguir a minha vida sem você, superando a cada dia a sua ausência. Indo em frente. Sentir a dor de quando fomos embora é tudo o que eu tenho. 

Em nenhum momento eu definitivamente parei ou falei que não daria conta de continuar. Não cortei os meus pulsos, nem disse que não me apaixonaria novamente, ou que a dor estaria me remoendo visceralmente vinte e quatro horas por dia. Eu só sigo em frente seguindo a sua falta, revivendo a dor do adeus, e as lembranças, aquelas gostosas. Sinto que foi melhor assim, cada um para o seu canto, eu precisava me reencontrar novamente, colocar para dentro dos pulmões novos ares, respirar outras atmosferas, e quem sabe não beijar outras bocas, e eu até beijei, ontem.

Não tinha outro lugar para nós no universo. Não havia espaço na sua vida para que eu pudesse fincar as minhas últimas raízes. Você não queria, já tinha cortado as primeiras. Deu errado, se estragou, se empoleirou, pegou ácaro, inseto nojento esse que gruda em tudo o que é desgastado. Traímos um ao outro. 

Mas hoje eu preciso saber uma coisa. Só me responde uma coisa? Você excluiu meu número? Não devia ter mandando aquela mensagem perguntando, mas eu precisava da resposta. Das tuas palavras me dizendo sim, sangrando um sim sobre mim. Eu decidiria o restante da minha vida com base nela. Eu precisava dessa libertação, e eu arrancaria de você a força se fosse necessário. Espero que não chegue nesse ponto. 

Chegou.

Com amor,
Sua amada

Virologia

30 junho 2019

Ontem o pensamento foi inofensivo, anteontem ele nem se quer existia. 

Tive febre por pensar muito. Racionalidade é agente infeccioso que se multiplica no interior de algo necessariamente frágil. 

Buraco de minhoca na quarta sinfonia do peito era matéria de falta, estoque de ausências. Semana retrasada, ainda revivia uma quase insanidade domesticada. Meus braços curtos tocavam elemento palpável: saudade diluída no olhar, vazada de fora para dentro, não era lágrima, se tratava de fluído lacrimal constituição de água, lipídios, lisozima, glicose, ureia, imunoglobulinas. 

É mais fácil digerir a cientificidade das coisas do que colocar para dentro a beleza poética embutida nos grandes sofrimentos do homem, porém não mais significativo. 

Nessa época, eu matava o verme, não o seu criadouro, a central de reprodução continuava intacta, com suas paredes impermeáveis. Pensava que era fungo o que me acometia, ou bactéria em proliferação, vírus aguardando o hospedeiro, protozoário. Tive gosto esquisito de enfraquecimento por dias, estava indefeso e desarmado. 

Meu sistema imunológico em paralisação, talvez em greve. De vez em quando a defesa do organismo contra o ataque de invasores externos falha, até os anticorpos recuam diante de um perigo maior. O que eu tive foi nocivo, uma substância tóxica de animal peçonhento, mas não era nenhum bicho rastejante, era humano. 

A taxonomia diz que somos homo sapiens. Discordava em partes: temos sentimentos virais, que mais parecem microrganismos, ganham viva ao menor contato com a estrutura corporal, se revestem de células, tecidos e órgãos. Apropriavam-se da cadeia metabólica, potencial bioquímico das enzinas em falência múltipla. Antígeno. 

Comprava medicamento na tentativa de cura, me entorpecia de quantidade exorbitante de moléculas, átomos, nutrientes, vitaminas. Fui uma farmácia ambulante quando ainda me faltava ter em mãos o diagnóstico da doença, o padecimento da homeostase em nome da estranheza do que o corpo não reconhecia como seu. Tudo o que sabia: era humano. Espécie mortal. 

Tinha partículas virais, extremamente pequenas, submicroscópicas, impossíveis a olho nu, adotava nome próprio. Fiquei sabendo mais tarde que a reprodução dos vírus acontece quando este insere seu material genético no da célula hospedeira, passando a dominar o metabolismo dela, destruindo-a. Tive um ciclo viral, havia sido isso.

Vírus, do latim vírus, que significa fluído venenoso ou tóxico. Longe de um abismo onde se alocar são inertes, ineficazes. Morrem sem que haja algo para abocanhar, quando já penetrados na epiderme, em contato com a maquinaria das células, comandando a corrente sanguínea, as funções que garantem a sobrevivência da espécie, provocam a sua degeneração, encaminha sem atalho para a morte o corpo, a vida.

Meses mais tarde, em delírio febril deitado sobre o leito da cama, com a transição de uma lágrima perfurando a vista, o vírus me partiu ao meio novamente, desestabilizou-se em mim as suas duplicações, réplicas de si, procriação de finalidade: me levar ao caixão antes da loucura. Acreditava que para levar ao túmulo precisava de caixão, acontece que eu estava vazio por dentro, doença me ocupando. 

Meu vírus chamava-se amor. Precisava de mim, hospedeiro frágil que em relação comensal, ou mutualista, se manteve vivo, abriguei outro. Este, ao contrário, era vivo. 

Quando é o pior que acontece

28 junho 2019
Sabe, não tem mais esperança.

Caramba, como doí, não é uma dorzinha como bater o pé na quina da mesa, o dedo contraído no móvel estático do quarto, ser baleado por pequenas gotas de óleo fervendo na pele enquanto o ovo frita. É pior. Cada músculo se contraí ao levar um soco, o bandido aparece armado na sua frente e seu sistema nervoso paralisa, suas pernas oscilam, o gosto ácido da bile no estômago massacra e devora a lucidez da ação, a resposta iminente não vem. É mais aterrorizante que a Penicilina G benzatina perfurando o tecido das nádegas, aquela agulha filha da puta que enfraquece até o mais corajoso dos homem, líquido feito ferro que faz a pressão cair de instantâneo. Você arranca sem querer os defeitos da unha, a cutícula exposta do dedo, e tira mais do que devia, o sangue escorre e pinga, é insuportável, porque você coloca band-aid na ferida, e o ar para de circular, os poros se contraem, e nada funciona, quando vê, é câncer que se espalhou sem nem avisar. 

As cenas em que o saco plástico grudado a cabeça da vítima transfigura tanto desespero em formato nojento de sangue cuspido da boca e do nariz, depois o deitam e despejam água contra o pano escondido no rosto, seu pulmão indefeso, engolindo líquido em excesso, incapaz de roubar oxigênio, ou desferir para fora dióxido de carbono, é a respiração da morte, entrecortada e fulminante. O corpo inteiro molhado de cemitério, amarrado esperando a foice certeira, o último elemento atômico sendo real antes de inexistir, a dor tombando sobre si concreto, asfalto, uma rua inteira massacrando esperança. É pior. 

Não saber se algum Deus de propósito faz, por imaginação saltitante que inventa a contração dolorida dos músculos com as células repulsando para trás, recuando, precisando lutar contra a tonelada que te puxa para frente em impulsos únicos. Difícil morrer e não saber por que a vida liquefaz entre os dedos. É pior. Como ganhar na megasena e perder o bilhete da aposta, procurar os seis números sortudos que ficaram registrados na memória, mas desapareceram do papel em algum esconderijo da casa, imaginando que foi jogado direto no lixo, sem nem contar despedida, e perceber mais tarde que tudo não passava de um sonho, invenção do inconsciente desenhando mentira nas sinapses.

Vai querer cortar os pulsos em desgosto, porém a mão vai tamborilar em movimentos nervosos e repetitivos de recuo até a tomada de consciência dizer não: você não vai. Não tem fôlego para riscar de uma vez só uma linha reta na vertical, ou horizontal, profundo o suficiente para alcançar uma veia, aquela interligada no coração, aorta, não é? O máximo que vai acontecer é pegar tétano ou infecção em consequência da ferrugem da lâmina, então depois nenhuma faca vai aliviar a pressão interna, porque se usar, vai estourar, feito uma bexiga, e bum: irão chorar debruçados no seu caixão, e as lágrimas não serão líquido, serão vômito, aquele que sai direto das tripas, do intestino delgado, sei lá o que isso significa. É pior. 

A tecnologia vai avançar tanto, mas tanto, que até lá vai ser possível ingerir uns comprimidos garganta adentro, e quando este se dissolver no pé do estômago, e cada célula do corpo respirar analgésico, seu efeito colateral vai ser o esquecimento. Memórias que atravessaram o corpo em pequenas navalhas, gigantescos cortes, serão deletadas como o histórico de sucessivas pesquisas malfeitas que não deram em nada, e vai começar do zero. Até lá, é pior. 

Vai tentar substituir remédio de gripe por ansiolítico para diminuir ansiedade, ou por droga, quem sabe cannabis até o seu pulmão morrer asfixiado pela fumaça da tragada. 

Mas vai ser pior. 

Porque sempre vai ter algo que vai ser pior, e você sabe disso. O pior vai ter arrastar no asfalto com uma corda no pescoço, e esmagar os seus ossos contra a calçada, e seu crânio vai sofrer ruptura, abertura em alguma região do cérebro. Esse pior vai evaporar a paz, vai te obrigar a andar para longe do estado de tranquilidade e te abduzir para uma dor um milhão de vezes pior do que enxaqueca, onde não haverá nenhum remédio para remediar a sensação inumana de que carne está apodrecendo sob a pele gasta, enrugada pelo picotar da vida. Ela passa tesoura em nós e fingimos não revidar enquanto tudo se remói nos desesperos noturnos. 

Você sabe, não há esperança quando é o pior que acontece. E cada um tem o seu pior, e quando você chega no seu, não há ressoar de desistência ou morfina injetada diretamente na veia que alivie o gosto da morte que fica na boca em meio a vida. Não há nada. 

O homem que nasceu monstro | Frankenstein | Mary Shelley

18 junho 2019

Uma das últimas leituras concluídas foi Frankenstein da escritora Mary Shelley, lançado em versão pocket pela editora L± não conhecia a história de Victor Frankenstein, um jovem que ao ingressar nos estudos da ciência em uma universidade, e utilizando como referência diversos outros cientistas, entra em uma busca frenética por responder uma das principais perguntas que o livro traz: é possível criar a vida? 

Victor Frankenstein se debruça exageradamente na hipótese de descobrir os segredos da criação do ser humano, e na possibilidade de ser bem-sucedido em suas investidas cientificas, e como sabemos, o jovem rapaz consegue recriar uma vida em laboratório, de um modo totalmente desumano e cruel, sem realizar qualquer inferência racional das consequências e efeitos que isso poderia trazer, porém quando Victor sente o horror das suas atitudes e a monstruosidade de sua criação, fruto de uma dedicação mais do que desgastante, encontra-se em um abismo de arrependimento eterno, um remorso perceptível em cada página. 

a-Mar.

16 junho 2019

Eu o amei na magnitude do meu silêncio, sentimento internalizado sem chance de escape, quase sugado pela espera, a teimosia do tempo me privando a descoberta. Não o conhecia antes do nosso primeiro encontro, aquele confronto físico, corpo a corpo, o olhar azulado dele encarando a vastidão castanha do meu. 

Junção infinita de cores e sensações, calor me subindo. Intimidade ingênua desenhada na ponta dos nossos dedos quando o toquei, ainda morno dos raios intensos do meio-dia. 

Éramos partículas não apresentadas um ao outro, ocupando espaços distintos, embora achando que o sentia em absolutamente tudo. Eu ansiava por vê-lo, meu coração golpeava sedento um desejo, uma tocadela para experimentar o gosto selvagem do nosso amor. 

Até então eu não entendia as nuances em tom de azul que se projetavam através de mim. Seu olhar era o todo que eu encarava e sentia, por cada lacuna que olhava, a eferverscência descortinada de sua profundidade me paralisando os gestos, os remorsos e os desgostos. 

Havia tamanha familiaridade nos espaços em que nos encontrávamos e depois em nossos desencontros, onde fazíamos ondulações constantes, sendo eu um corpo de matéria estática, e ele movediço, inquieto, agitava-se como um pássaro em busca de pouso, mas não parava nunca de desabar na margem, no cais, em mim.

O corpo dele, às vezes em velocidade atômica e outras vezes inerte, se debatia no meu peito, agitava-se pela força da ventania sob minha pele nua, descoberta, sentia-o frenético, ele fazendo-me perder as minhas referências espaciais quando eu adentrava com maior fôlego as suas particulares, esquecendo a superfície, meus pulmões quando em dor implorando para voltar. E eu obedecia. 

Gotículas salgadas me entortavam os lábios quando o beijava sem querer, inevitável o encanto palpável da sua beleza. Ali, coberta pela sua saliva, o suor das entranhas do mundo me sacudindo o corpo, fui testemunha da fraqueza humana. Sua maré branda me saldando, em mansidão extasiada, a paixão em euforia interna em mim. 

Os tapetes veludos de casa transformaram-se em areia, acariciando-me a pela desnuda, ele brincando de cócegas, inundando-me de partículas diminutas pelo corpo, sempre bem vindas, ali era um deposito de porções infinitamente menores, seria eu também um desses fragmentos que pela gentileza do universo se pôs ali? 

Sob minha cabeça, e sob o castelo de contemplação que se construía de canto a canto, o sol, admirava-nos, um novo grito silencioso saltou da minha face exposta a sua luz, o seu brilho forte, tenaz, lampejante, parecia que também me saudava ao longe, como se suspirasse em suas faíscas fumegantes nosso encontro. 

Encontrei-me inteira em águas cristalinas, e aprendi a amar o mar como se fossemos só, quando pela primeira vez juntamos corpo e líquido, sólido e fluído, um belo impar. 

Nunca mais me senti só. 

Homem histórico

15 junho 2019

Circuito-fechado é o homem que fala. Cabeça quadrática que gesticula em salivas gordurentas de mal-dizer, escárnio, ironia. Diz o que não sabe. Linguagem escassa, com o excesso do menos. Segue estrada unilateral, não aceita atalhos ou encolhimentos. Opiniões do avesso ele próprio esmaga, sentencia um julgamento próprio, não aceita ajustes, enxerga, mas não vê; sente, mas não se sensibiliza. Estender a mão? Está mais para atravessar reto, sem nem olhar. Nem faz questão disso. Nunca sente muito. Quando sente, é tesão, sexo, desejo, atração. Líquido como o tempo, escorre das mãos feito água, óleo escorregadiço, incerto. Bauman acertou. Fagulha em combustão: acaba rápido. 

No limite do instável. Sossegado demais. De vez em quando leviano. Esconde-se frágil, ninguém percebe que é quebradiço. Estático como uma múmia, paralisado no tempo: parou de avançar. Defende um governo improgressivo, com unhas e dentes veste azul e verde como se assim pudesse não empobrecer a alma, quando esta já caiu em desuso. Imobilizado em próprias verdades, as retém com fidelidade: incapaz de traição. 

Não pensa duas vezes antes de tecer o fio da crítica, da discórdia. Aceitação nenhuma o fez mais compreensivo, intolerante se tornou o homem sem perspectiva alguma de permuta, alternância de ideias impossível, outra existência quem sabe. Caixa fechada, quadrilátero que termina e começa no mesmo ponto, retrógrado na fala, nos gestos, no viver. Não aprende, saber raiz quadrada de cento e quarenta e quatro e a fórmula de baskara, teorema de pitágoras, a fórmula da água, diz não fazer diferença, poderia fazer uma fogueira de Dante, Schopenhauer, Freud, Nietsche, Jesus Cristo: nada mudaria. Ignorante por escolha própria, livre-arbítrio no aborrecimento constante. 

Uniformizado no pensar. Não pare conceitos, mal engole o que já sabe, reclama do que não entende, descarta o que não lhe serve. Cospe a mentira e quando verdade, permanece em silêncio. Circuito-fechado. Nunca leu Camus, mas é estrangeiro: um desconhecido de si. Anacrônico. O cúmulo da tradição feito chiclete na palma das mãos, atrasado. Quadrangular. Resmunga dos males do mundo, e determina em frescura o mal-estar do século. A cultura, mal investimento, a arte, um gasto desnecessário, a educação, uma burrice de prioridade. Incapaz de pensar outro, bloqueado de ponto de vista, inviável no diálogo, retraído em tudo. A única pergunta importante de um circuito-fechado: o Corinthians joga quarta?

Tecer

13 junho 2019

Acordei e da minha janela, hoje o dia estava cinza. Não era apenas o céu que reverberada um tom morno, fosco, a secura da minha alma era igualmente cinzenta. 

Perguntei-me se sou realmente bom no que faço, e ontem a noite eu chorei sem de fato conseguir encontrar uma resposta. Tentei descobrir, no decorrer tão fino do meu choro silencioso perdendo espaço nas maças úmidas do rosto, se de fato possuo algum talento, por mais ínfimo que seja, ou se tudo o que faço: tecer tecidos dentro da alma, minha e de outros, é expressão vazia, um abismo de nada, uma capacidade oca. 

O tapete felpudo permitiu poucas cócegas na sola descalça do pé, antes que um chinelo partido e prendido com um prego enferrujado me protegesse da frieza tão dolorosa do chão. Chorei novamente, dessa vez com a ponta de uma dor me enfurecendo as entranhas, um pesar interno devastador. 

Gotas salgadas roçavam meus lábios na profundidade de um vazio internalizado na garganta. Perguntei-me, dessa vez na invasão repentina de um padecimento meu, se realmente entrelaço tecido com agulha, compondo teares em roupagem nova, em vestimenta graciosa para mim e outros, ou se me arrisco no tecido, fiares desordenados em farrapo.

Senhora | José de Alencar

11 junho 2019

Ficha Técnica
Título: Senhora
Autor: José de Alencar
Editora: Ática
Edição: 34. ed, 2003
Local: Rio de Janeiro
Ano de Publicação: 1875
José de Alencar, político, jornalista, dramaturgo, advogado e escritor, filho de um padre, consequência de uma união considerada ilícita e particular, nascido em uma cidade do Ceará, foi um dos principais representante de uma das épocas mais significativas dentro da literatura, o romantismo, publicou romances urbanos, indianistas e regionais. Ao iniciar o curso de Direito no Largo de São Francisco, deparou-se com o romantismo também visível no estilo de vida das pessoas: a boemia, bebidas, bares, ressacas, porém José de Alencar sempre adotou uma postura disciplinar e moderada, conciliando seu tempo entre os estudos acadêmicos e a literatura, nunca alheio aos hábitos da própria juventude na época; em meio a sua carreira como escritor, descobriu os primeiros sintomas de tuberculose, mal que o acompanhou durante quase trinta anos. 

A obra Senhora, um dos mais importantes romances de Alencar, contextualiza as principais características da sociedade e o funcionamento do meio social na Corte durante o Segundo Reinado. Senhora nos apresenta a história de Aurélia, uma jovem mulher que após passar por longas mudanças ao sair da sua condição de pobreza para ganhar uma herança inusitada, torna-se uma das mulheres mais ricas e admiradas do seu entorno social, frequentando bailes e festas e tendo sobre si olhares de contemplação e estima. Quando ainda possuía uma vida humilde e carente, conheceu o grande amor de sua vida, Fernando Seixas, um rapaz também privado de certas regalias, que correspondeu de imediato ao seu forte sentimento, porém com receio de continuar com seu status desafortunado ao casar-se com Aurélia, ele a abandona e torna-se noivo de Adelaide por uma determinada quantia acreditando que essa união acarretaria em mais benefícios financeiros. 

Quer saber minha opinião? isso que o senhor chama escravidão, não passa da violência que o forte exerce sobre o fraco, e nesse ponto somos nos mais o menos escravos, da lei, da opinião,das conveniências, dos prejuízos, uns de sua pobreza, e outros de sua riqueza. Escravos verdadeiros, só conheço o tirano que os faz, o amor; e este não foi a mim que o cativou.


Aurélia, quando se vê sozinha após o falecimento de sua mãe, cuidada somente por Dona Firmina, sua tutora, e amparada por uma herança milionária deixava pelo seu até então desconhecido avó, decide elaborar uma vingança proposital contra Seixas e dar-lhe o troco pelo abandono, decisão esta que dá inicio a uma sucessão de acontecimentos e reações que demonstram o quanto a ambição é capaz de transformar qualquer sentimento, por mais intenso ou puro que seja.

Ao longo da narrativa, nos deparamos com um contexto no qual o casamento era visto, não unicamente por um viés romântico ou a busca pela "alma gêmea", como também uma possibilidade de mudar o status do indivíduo, e foi justamente esse egoísmo próprio de Fernando que o fez aceitar a chance de alterar sua posição social. Na época, era comum haver casamentos arranjados e conduzidos pela fortuna que o sujeito possuía, em vista disso, as mulheres que tivessem condições mais desfavorecidas, a chance de conseguirem achar um pretendente eram menores. 

A obra de Alencar retrata como um casamento comandado pelo poder aquisitivo, pelo patrimônio e as riquezas individuais, como ocorreu quando Fernando aceita desmanchar seu noivado com Adelaide, para se casar com Aurélia por uma alta quantia que receberá como dote, sem ao menos ter o conhecimento de quem era a noiva, permite que uma união se transfigure em rancor, repugnância e desafeto, como um ato de amor passa a ser tratado como uma simples operação mercantil.

Fernando sente-se humilhado após descobrir que era Aurélia a jovem moça com quem iria formalizar o casamento, reconhece que se tornou uma mercadoria, um objeto vendido e comprado por outra, submete-se aos caprichos de sua esposa. José de Alencar, para ilustrar o tráfego mercantilista no qual se baseia o relacionamento de ambos, utiliza termos adequados ao comércio para nomear os capítulos da obra: preço, quitação, posse e resgate. Em meio ao jogo adotado por Aurélia e Fernando, ela própria se limita a aceitar o desgosto da vida, a enorme frustação do seu amor idealizado e o coração partido, tentando se manter ora indiferente aos grandes decepções enfrentadas e ora resignar todo o sentimento ferido que ainda carrega dentro de si e que insiste em esconder do marido, enquanto Fernando envergonhado e humilhado pelo rebaixamento ao qual se submetera, maravilhar-se com a beleza e grandiosidade de Aurélia, se equilibrando no desejo de possuí-la e simultaneamente em manter o distanciamento mesmo estando tão próximos.

Representamos uma comédia, na qual ambos desempenhamos o nosso papel com perícia consumada. Podemos ter esse orgulho, que os melhores atores não nos excederiam. Mas é tempo de pôr termo a esta cruel mistificação com que nos estamos escarnecendo mutuamente, senhor. Entremos na realidade por mais triste que ela seja; e resigne-se cada um ao que é: eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido.

Alencar explorou de modo significativo o psicológico dos personagens, principalmente quando retrata com detalhes e particularidade os sentimentos de Aurélia, relatando com minúcia a intensidade da paixão que ainda detém por Fernando, suas complexidades internas, os desgostos e desprazeres sentidos, os pensamentos que se apoderam de seu espírito tão firme e ponderado, já que ela também nos é apresentada de maneira independente, “dona de si”, onde a própria protagonista define e determina suas ações.

Por se tratar de uma obra do período romântico, José de Alencar mantém uma preocupação em narrar com certo “exagero”, utilizando uma linguagem dramática, rebuscada, com uma constante tendência para metáforas e outras figuras de linguagem, exaltando a beleza de Aurélia em diversos pontos da narração, comparando-a com elementos naturais de igual perfeição, talvez em algum trecho da leitura se torna cansativo se deparar tantas vezes com o tom exagerado da linguagem, como por exemplo “ídolo dos noivos, deusa dos bales, musa dos poetas, rainha dos salões, nova estrela, brilhante meteoro”. Haja paciência, porém a leitura rica em detalhes vale a pena.


O tom de crítica exposto por Alencar ao trazer para nós costumes, hábitos e as posturas adotadas pela sociedade da época, como também a necessidade de uma vida de aparência, escondendo as imperfeições familiares e a imprecisão das relações, nos faz refletir no significado do casamento para cada indivíduo, e a maneira única como lidamos com as idealizações frustradas e tentamos ultrapassá-las ou escolhemos nos prender justamente as desilusões sem perspectiva alguma de mudança. Aurélia e Fernando são dois personagens que evidenciam a luta entre o inferno e o paraíso, entre o desejo e o não desejo, o desequilíbrio existente no amor e na ganância desenfreada de status e dinheiro, dois aspectos que podem coexistir, porém nunca o último em detrimento do primeiro. 

E o que é a vida, no fim de contas, senão uma contínua transação do homem com o mundo? 

Tão imensamente vazia

06 junho 2019

Possuo ausências embutidas em mim, como uma placa de ferro pontiaguda perfurado na massa mole corpulenta, ensanguentada pelo não cumprimento do afeto, do olhar não dirigido, a incerteza atravessada na alma, a angustia penetrada na costela, a dor amargurada transportada na própria garganta, um coração aconchegado em marcas das faltas que a vida não me permitiu sentir, abocanhar, torna-se finalmente meu, inundar-me da insuficiência desprezível do mundo que em nada cura quando eu inteiro me faço na possibilidade de ser o que nunca me permiti, realmente, escolher. 

Falta.

Ausência. 

Vencimento próximo. Data de validade em aproximação constante, em rasteira ressonância com tudo o que escapa de mim, pelo vazio ancorado da alma: é o que falta para ser o vácuo. 

Não culpa as batalhas inteiradas em mim que na secura do horizonte próximo, ainda inerte, estático, sonambulo na paralisação repentina minha que me faz não sentir o nada em mim, asfixiam-me o tesão pela vida. Mãos ocas e comprimidas, resgatadas em maré revoltosa, na quebradiça onda infinita do movimento traiçoeiro do mar; uma alma solitária como a minha, repousada no seio do que nunca tive para chamar de meu, descansa na esfera último da vida, aqui existe mais túmulos do que todos os cemitérios de São Paulo: abro covas em nome de todas as minhas mortes de solidão. 

Vazio. 

Baú. 

Contam-me que não foi de propósito, que na mais aleatoriedade proposital da órbita, no processar reservado da incompreensão, no bater fervoroso de uma borboleta, na gosma nojenta de uma lesta rastejante, meu quarto tornou-se um refúgio, e então não havia modo algum de arrancar o vírus catalítico da besta: minha própria companhia. 

Engraçado mesmo é que nela eu morri pisoteada por pés invisíveis, metade silenciosos e novamente calados. Igualmente muda como eu. Sou oca por dentro, aqui há um espaço preenchido por uma sentença, palavras barulhentas que nada conseguem dizer, frases saltitantes que picam como abelhas em assassinato provado e condenado. Esse vazio cresce, interno, inunda com delicadeza, ao mesmo tempo, repleto de uma brutalidade domesticada, as últimas esperanças revestidas do meu brio ferido. Tenho pressa em fitar com eloquência e desventura, o abismo, mas este perde-se com facilidade incomum nos traços intricados da minha face, na voz rouca que umedece os lábios rachados, baú tão meu que me engole com afinco, sem trégua. Luto. 

Vão.

Fútil.

Buraco oco da vida, fundo lacunoso da alma, perfuração dificultosa da morte: estas são apenas as constatações esquecidas que me fizeram inteira na tragédia que fui, nas feridas entreabertas que coçam com ardência, no sabor amargado que afaga as bolotas inchadas da língua, na firmeza amolecida da desgraceira habitual que hoje nunca me escapou. 

Vazia.

Auto Retrato

01 junho 2019

eu deveria te desconhecer, 
reconheço apenas a estrela caminhando
sob a escuridão,
distante e inatingível que aos poucos
vem deixando de brilhar. 

teus medos revelam-se no escuro, 
a vela se derrete enquanto o fogo consome, 
e aquele olhar continua esperançoso, 
mesmo sabendo que o céu já não cintila 
resplandecente, 
nem lampeja, 
nem reverbera chuva ou sol, 
onde há somente uma 
lembrança sobrevivente.

a recordação de um olhar reluzente, 
de uma voz quietante, 
de um abraço passível, 
é a esperança que alumia o escurecer 
da noite constelada, onde aquela pequena
estrela murcha continua a se desfazer, 
desarrumar-se prontamente, 
destroçar-se de imediato, 
e retornar ao céu, até alguém vê-la 
novamente quase amortecida e fosca.

ninguém a desconhece, já que a sua 
luz reverbera entre estações, reflete décadas 
entre o cair e o levantar-se, mesmo às vezes
quase desaparecendo entre tantas outras, 
apagada por centímetros, 
ainda manifesta sua essência,
porém dessa vez sozinha.

não se apaga o brilho de quem não nasceu
para desvanecer a escuridão, 
e dissipar as 
trevas. 

- pode parecer loucura, mas essa estrela sou eu.