Perdoa, Zé

23 novembro 2016

Mas é claro que eu mudei, Zé. Sei que agora deve ser difícil acreditar, mas eu já fui diferente do que sou hoje. Era eu a garota que sorria com tanta facilidade em uma roda de amigos, que abraçava cada um deles toda vez que os via, eu até acreditava mais em mim, depositava mais fé nos meus planos, mas quando precisavam de mim, eu abria mão de todo um futuro ao lado de alguém só pra estar mais presente quando uma amiga estivesse precisando de um abraço, mesmo que na hora eu não dissesse uma única palavra, na pior das ocasiões eu sempre estava lá. 

Zé, eu senti tanta saudade de pessoas que me largaram só porque achavam que eu era boa diversão, mas eu sempre engolia o meu orgulho e corria atrás de quem não mereceu um minuto da minha vida, é que por muito tempo eu depositei confiança demais na certeza de que as pessoas mudam, e que eu poderia ser o motivo dessa mudança, mas é claro que eu quebrei a cara algumas vezes por ser aquela menina boba que acreditava na bondade das pessoas. Também já fui mais otimista, na verdade era eu garota que todos procuravam pra pedir um conselho, uma direção de vida como se eu tivesse todas as certeza do mundo na ponta da língua. Todos me queriam por perto, porque eu era capaz de transformar algumas lágrimas em gargalhadas muito facilmente, mas o que ninguém percebia era que às vezes era eu que estava chorando, só que por dentro. Eu era tão boa em esconder minhas dores dentro de um potinho e deixá-lo debaixo da cama que todo mundo achava que eu não tinha problemas. 

E a verdade é que eu já fui cheia de deles, até o pescoço. Eu colecionava decepções como alguém que enche um álbum de figurinhas. Meu peito já estava ficando cheio de dores, e ninguém se tocava que eu estava a um segundo de explodir, porque todo mundo sempre achava que eu era forte, mas Zé, eu nunca fui de ferro, e senti cada decepção perfurando o meu peito como uma navalha, ou uma faca afiada que só me atingia. É claro que ninguém se importou de me perguntar como eu me sentia, porque é muito fácil colocar um sorriso no rosto e dizer um monte de mentiras, é mais fácil do que encarar aquele tipo de confusão que só cresce dentro de você, onde ninguém mais consegue te enxergar de verdade. Acredite Zé, antes de ser essa garota, eu já fui diferente, tão diferente que hoje parece que sou irreconhecível até mesmo pra mim. 

Eu já amei alguém tão intensidade que senti o meu coração sendo arrancado do peito, mas agora parece que ele virou pedra. Sabe aquele pote onde escondi todas as minhas dores e coloquei debaixo da cama? Bom, eu acho que acabei colocando eles dentro do peito, porque aqui dentro não corre o risco de descobrirem, já que ninguém foi capaz de ir tão fundo, e esse foi o problema, eles conseguiram fugir. Todas aqueles dores foram se espalhando por cada parte do meu corpo, e quando chegou ao coração, eu passei a não sentir mais nada. Zé, de tanto apanhar da vida, eu mudei. Mudei o jeito de sorrir, mudei a cor do batom, mudei o brilho no olhar, que agora nem existe mais, mudei o tom da alma, mas me perdoa, Zé, de tanto mentir sobre ser forte, eu acabei não sendo nada. 

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