SETEMBRO AMARELO

05 setembro 2016

No começo você insiste em dizer que é apenas uma dor de cabeça, que vai passar quando deitar a cabeça no travesseiro, mas ela só piora quando você apaga a luz do quarto, ela se acumula lentamente sobre seu corpo, entra na sua alma, faz morada nos seus sonhos, deixa uma grande cicatriz em quem você é de verdade, e quando você já se deu conta, não era só uma dor de cabeça, estava mais para um vazio que se transformou em um buraco profundo demais para gritar, para pedir ajudar, para ser ouvido.

Você sente que os dias estão passando lentamente, sente que já não há aquela sensação de acordar todos os dias e agradecer logo pela manhã por mais um dia, porque uma parte de você insiste em querer que seja o último, e o mais triste é que os seus melhores sonhos são aqueles nos quais você está deixando este mundo, porque você acha que não tem como a próxima vida ser pior que essa, e porque no fundo você permanece convicto de que haverá uma chance de ser feliz, uma possibilidade de ser diferente, do sofrimento ser apagado, e da dor não existir. 

Aquelas coisas de antes já não fazem tanto sentido, porque agora parecem sem vida. Você sente como se estivesse enxergando através de uma barreira impenetrável: onde existiam cores, hoje é dominado por um cinza fúnebre. Durante muito tempo, você lutou para encontrar uma saída da própria sensação de vazio, mas se afundou ainda mais, você tentou gritar inúmeras vezes por ajuda, mas teve medo de que ninguém pudesse vir ao seu encontro, você resistiu a ideia de pegar aquela lâmina e cortar o seu braço quantas vezes fossem necessário só para distrair todos os seus pensamentos daquelas lágrimas silenciosas que machucavam mais do que qualquer ferimento externo, você tentou ser forte, mas alguma coisa parece que deu errado e você parou de tentar. 

Você fez o possível para não se deixar morrer lentamente, mas você sabe que toda vez que sai de casa pra ir ao trabalho, a faculdade, as festas, aquela mascara social que cobre todo o seu rosto faz tudo piorar, faz aquele remorso te corroer ainda mais por dentro, enquanto você finge que tudo está bem, que nada dentro de você está desmoronando aos poucos, mais um pouco se desintegra, e você quer que seja rápido, porque as batidas do seu coração não aguentam mais fingir. 

Mais um pouquinho de tempo passa, e você se afasta dos amigos, não retorna mais as ligações, que finge que está doente quando recebe um convite, não responde nenhuma mensagem nas suas redes sociais, se isola de qualquer ser humano, e até mesmo da família, porque você tem medo de dizer a verdade, esse pânico em contar o que realmente está acontecendo te atormenta. Sua mente cria suas próprias expectativas dizendo que ninguém vai entender, que não existirá alguém capaz de te ouvir, de sentar em uma tarde e conversar, você se recusa a acreditar que haverá alguém para segurar sua mão, no fundo a sua esperança diz que o máximo que irão falar é que é frescura, que vai passar. 

Mas você sabe que não vai passar, o tempo só vai fazer essa dor piorar. No meio do desespero você vai tentar jogar uma outra mascará em cima do seu rosto para esconder ainda mais o olhar triste, a boca seca, os olhos inchados, vai começar a responder que é só cansado, que é só mais um dia ruim. Você se pergunta quantas pessoas por aí também fingem, quantas continuam presas nesse estado mental de completa escuridão, sem saída, se recusando a tentarem quebrar o silêncio. 

Você odeia ter que lutar todos os dias para levantar, para sair da casa, para viver como uma pessoa normal, e vai piorando a cada dia, mesmo que haja um sol lá fora, parece que dentro de você só existe um tempo nublado. A satisfação vai embora, as coisas esfriam, cicatrizes aparecem no pulso, e a dor física é uma distração para não sentir o quanto as tarefas mais simples são dolorosas. 

E um dia você finalmente se pergunta: porque continuar vivendo se nada te faz feliz? 

E ninguém consegue responder, além de você, porque lá no fundo, ainda existe uma fagulha de esperança, você ainda espera ver uma vela ou uma lanterna no fim do túnel, você espera encontrar seu caminho de volta sempre que acorda, você ainda acredita que pode dizer chega ao vazio dentro do peito, mas você sabe que não é sozinho(a) que vai conseguir enfrentar seus próprios problemas, a dor não vai sumir como por mágica, você vai precisar gritar, mostrar ao mundo sua dor, vai ser obrigado a tirar sua mascará na frente dos amigos, vai permitir que todas as palavras saiam de dentro da garganta, vai deixar que alguém sinta a sua dor, vai escolher segurar a mão da pessoa certa quando o vazio quiser te engolir, vai olhar pra frente e imaginar um futuro, uma família, filhos e um cachorro. 

Existem pessoas que querem ver o seu sorriso, pessoas que estarão sempre dispostas a segurarem a sua mão, só queria segurar a nossa. PROCURE AJUDA, AINDA NÃO É TARDE, EXISTE SAÍDA, E A GENTE COMPREENDE. NÃO É FRESCURA. A GENTE TE AMA TAMBÉM. 

lua.intensa@outlook.com.br

4 comentários:

  1. Nada a declarar, apenas bater palmas e enxugar as lágrimas. Esse texto retratou algumas coisas que eu passei quando tive inicio de depressão. A gente sempre acha que ninguém vai entender, até porque sejamos sinceros, no mundo de hoje as pessoas se concentram apenas em olhar para o seu próprio umbigo. De fato muitos dizem que é frescura, mas cada um sabe as guerras que enfrenta todo santo dia. É o cobertor que parece pesar uma tonelada, é o espelho que parece esfregar na nossa cara o quanto estamos ficando fracos, a cada segundo é um pedaço nosso que de desfaz. Mas ainda existe solução, alguém que nos escute e nos abrace nos momentos ruins. <3

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    1. Esse texto é extremamente pesado, e por várias vezes tive minhas dúvidas se iria mesmo postá-lo, mas foi uma maneira que encontrei de passar o que realmente as pessoas com depressão sentem nessa fase tão escura da vida, talvez nem seja culpa delas, talvez seja o fato da sociedade querer excluir tanto algumas pessoas que são determinadas como "inferiores", mas como qualquer outra doença, tem cura, e o bom é que um coração disposto a ouvir, a amar, a abraçar e entender já é o suficiente para mostrar que ainda vale a pena viver, apesar de tudo. Tive começo de depressão, e até hoje tenho umas recaídas, porém sempre consigo sair dessa <3

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  2. Que texto maravilhoso. Me tocou muito, principalmente no eu pessoal! Um texto magnífico mesmo, fiquei feliz em encontrar você aqui no mundo dos blogs. E não canso de falar que este texto é estupendo, que com essas palavras você resume o que os outros falam que é "frescura". É triste, mas acontece. Mas o mais importante e lutar contra, ir contra a maré que te puxa para o nada, para o escuro, para a dor. Ótimo texto!

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    1. Oiee Edson, fico feliz em te ver por aqui, seja muito bem vindo <3 Quando o escrevi estava tocada pela causa do Setembro Amarelo, vi uma oportunidade em demonstrar o quanto essas pessoas não estão sozinhas, que ainda existem corações dispostos a ouvi-los, e que isso não deve ser tratado como frescura, e sim como uma doença que tem cura. Agradeço por ter gostado do texto, dei o melhor de mim para tentar só um pouquinho mostrar que ainda existe humanidade entre nós <3
      Beijos

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