Quem sabe o que a maré pode trazer

03 setembro 2016

Eu só queria me perder ali para sempre e nunca mais voltar, nunca mais viver aquela mesma rotina que tanto odiava, fragmentar todo o meu passado em pedaços que se tornassem inalcançáveis. Queria envolver uma corrente grossa o suficiente para nunca me deixar desgrudar daquele toque, por mais incerto e traiçoeiro que fosse o seu abraço, só queria me permitir mergulhar contra ele com a mesma segurança que tinha ao observá-lo distraído, enquanto o rumo desconhecido dos seus pensamentos era desenhado sobre a escuridão penetrante dos seus olhos. 

Ele despertava meu lado não muito estável, mudava as estações que existiam em mim com extrema facilidade e alterava toda a distância que existia entre meu coração e o meu cérebro. Seu efeito era como as chamas de uma fogueira me consumindo, sem controle, sem lógica e sem considerar tudo o que existia ao meu redor, e minha limitação era como lenha. Não havia como parar, tudo de mim pertencia ele, e eu odiava me sentir tão vulnerável e ao mesmo tempo tão certa de mim mesma, tão certa de que nenhum outro mundo poderia me separar dele. 

Não precisei mais fugir de nenhum monstro debaixo da cama, porque no fundo sabia que não poderia existir nada na escuridão além do medo que eu mesma criava. Enquanto a mente pode ser a nossa aliada, também pode ser a nossa pior inimiga. Achei que não fosse possível bloquear a inquietação e a covardia de me afogarem lentamente, já que eu era inocente demais para fechar a única brecha que existia para a decepção e o caos entrar, mas ele me ensinou a controlar o único lado de mim que não parecia conectado a ele. Se hoje existia uma armadura me fortalecendo ao mesmo tempo em que me protegia da entropia desse mundo, era porque ele havia sido corajoso demais para não me soltar. 

Naquele lugar não existia pôr-do-sol. Era sempre a mesma vista acinzentada e cheia de reflexos parecidos com grãos metálicos que emergiam daquele tipo grotesco de fumaça, embora seja o tipo de coisa que faz alguém pirar, eu me sentia disposta a fazer daquele mundo o meu novo lar, estava disposta a abandonar quem eu havia sido durante toda a minha normalidade [...] se ele estivesse transformando minhas noites em belos pores-do-sol, lutaria por tudo que valesse a pena. É esse o efeito que o amor tem sobre seres humanos, e talvez até mesmo sobre os menos humanos, certo?

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