Contra pra ela que não é o fim do mundo

31 agosto 2016

Hoje ela vai dormir com um vazio tremendo no peito, não um coração partido, porém uma alma feita de buracos fundos demais para alguém pular e alcançar o outro lado. Até porque ela sente que não existe um outro lado para se chegar, não existe uma luz no fim do túnel. E ela se pergunta por quê ainda acredita que existe esperança, mesmo quando tudo diz que não. Alimentar tantas expectativas não fazem bem a ninguém, mas no seu caso, parece que é a única alternativa depois de todas as chances terem sido esgotadas. 

Até hoje ela não sabe porque não parou de tentar. Ela é uma garota feita de indecisão, e aprendeu a se levantar depois de uma queda, mas não aprendeu a curar todas as feridas que surgiram como consequência. Hoje são meras cicatrizes sobre inúmeras outras, marcas que precisavam se implantar no corpo de alguém e escolheram logo o seu para dominar. Depois de um tempo, a gente se acostuma a dor, mesmo que no peito ainda haja aquela teimosia em querer fazer diferente, em lutar por propósitos melhores e não se deixar desmoronar sempre que possível, só que nada é igual ao gosto de abrir espaço completo para a pequena angústia que vai crescer contra todas as forças do universo. É simples, é só desligar o restante de luz que ainda existe. 

No começo ela achou que fosse difícil, que não saberia suportar aquele sentimento inquieto de falta, de ausência, de coração abandonado. Tudo dentro de si murmurava que era impossível lutar, por isso ela não recusou a ideia de se entregar de vez ao recorrer lento e insuportável dos dias. Suas feridas jamais seriam curadas, e isso não era nada reconfortante, na verdade, não existia nada forte o suficiente para tirá-la desse coma imortal que era continuar encontrando um refúgio nos sonhos em que se via morrendo. Tudo estava fora do lugar, principalmente sua cabeça. Tudo era um borrão acinzentado, e o tom nublado da manhã parecia um reflexo daquilo que sua alma absorvia. 

Ela sabe que jamais será fácil, porque a vida não foi feita para ser satisfatória e suprir todos os nossos desejos, viver sempre vai doer um pouquinho, vai trazer uma decepção do passado de volta ao presente, vai golpear os sonhos por meio de uma realidade dura e incompreensível, viver excede o limite da lógica e traz uma infinidade de questões não respondidas, viver é correr os riscos enquanto se espera a consequência de cada oferta aceita, viver é machucar a si mesmo inúmeros vezes. Ela não quer fugir da dificuldade e da tormenta, não quer largar tudo no meio do caminho e simplesmente esquecer o presente, mas se existir uma maneira de preencher esse vazio no peito, de parar os machucados que não se regeram, conta pra ela, porque não resta muito tempo para desfazer a sujeira que todo o medo cria, e porque os dias restantes só são uma droga de desculpa para sentir que o câncer consome o que um dia já foi bom, e hoje, é só mais um terrível sonho que não acaba. 

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