A escrita é abrir os braços e se jogar, sem medo

19 julho 2016

Essa sede pela escrita havia começado cedo demais, e escrever já não era um hobby como qualquer outro, como ir acampar só no fim de semana, ou contar os dias que faltam para aquele domingo chegar enquanto se gasta tempo atrás de uma mesa de escritório em um emprego que você odeia. 

Um dia eu estava na janela do ônibus, observando lentamente enquanto o trânsito me fazia demorar mais alguns minutos para chegar em casa, e era uma paisagem tão silenciosa e escura ali fora, apesar das pequenas lâmpadas que contornavam as ruas. Ainda faltava muito para uma madrugada fria se aproximar, e não estava quente como eu queria que estivesse, mas já era o bastante para absorver cada detalhe de como tudo é sempre tão passageiro. Em um segundo, você está aqui, mas em outro, você pode se descolar para qualquer lugar, pode fugir, ir embora para sempre, não dar mais notícias, mas a escrita, não. Ela não foi tão covarde como você havia sido. 

Ao contrário, a escrita sempre esteve aqui, até mesmo quando você me fez escrever páginas inteiras sobre a dor que havia me causado, sobre aqueles cacos que se desprenderam dentro de mim tão facilmente, me cortando por dentro como se eu fosse aquela garotinha frágil e inocente, como uma boneca de porcelana, mas eu era o seu brinquedo favorito, e você minha única poesia. 

Eu ouvia NXZERO no último volume depois de um dia turbulento no ensino fundamental quando meus pais não estavam em casa, e esperava eles chegarem para poder ir a biblioteca e me distrair pelo menos um pouco de você. Minha caneta rabiscava inúmeras páginas de um rascunho velho e esquecido, e só pela vontade  de queimá-los a cada vez em que preenchia seu nome entre as linhas, eu os guardava como se pudesse guardar você para sempre. 

Mas você foi embora, e a escrita ficou; seu jeito estava sempre entre minhas palavras, seus olhos castanhos, tão belos e incompressíveis, eram o pedacinho que completava o vazio de folhas em branco, de cadernos incompletos, e de uma alma cheia de problemas que não podia concertar. Afinal, a adolescência é um sinal de bagunça e fim do mundo, não é?

E foi engraçado a primeira vez em que joguei futebol, com um time de verdade ao invés de uma partida rápida no vídeo-game. Foi engraçado como eu era uma péssima jogadora, e errava grande parte das jogadas, mas eu conseguia rir até mesmo quando tudo parecia perdido, e o meu primeiro gol foi uma dedicação silenciosa a você, porque você era um dos melhores do time do colégio, simplesmente apaixonado por futebol, e eu me questionada para quem você dedicava todos os seus gols. E se existisse alguém, se havia alguma possibilidade de ser eu?

Mas eu era tão iludida, tão cabeça de vento, como é possível uma pessoa imaginar tantas coisas que nunca chegariam a acontecer? Às vezes, eu volto ao passado, sim, eu volto, dou meia volta e quando me vejo, estou naquela sala cheia de alunos tediosos e insuportáveis, porém em meio a tudo, eu ainda escrevia aquelas cartinhas secretas para você, e você ria, por saber que era eu a remetente. 

Será que existe alguma chance agora, de apagar o passado e começar outra vez, só que de um ponto que não fosse tão incerto e nebuloso igual o nosso primeiro e último beijo? 

Tudo se desfez, menos aqueles versos que escrevi em um tempo onde não existia nós. As tatuagens que criei, não no corpo, mas no coração, hoje são o que mantém meus pés no chão. As palavras foram minhas aliadas em todos os instantes, mas a saudade que você deixou foi demais, intensa demais para um dia ser capaz de esquecer que existe a escrita me aproximando de você.

Escrever é mais do que colocar um pedaço da alma no papel. Tudo flui tão naturalmente, é fascinante o quanto elas são capazes de te conduzir por um tempo tão incerto, um lugar qualquer do passado, ou um sonho a ser vivido, e até mesmo quando se tratam de sentimentos tão particulares escritos por aí. 

Nem todas as galáxias juntas conseguem destruir esse sentimento de captar e jogar tudo no papel, como se fosse uma queda livre em direção a algo que não se pode enxergar ainda, a escrita é abrir os braços e se jogar, sem arrependimentos ou medos. 

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